A palavra “arte” nos remete ao termo grego "techne", que significa não só arte, mas, também habilidade, técnica ou ofício. "Techne" era usada para descrever qualquer forma de conhecimento técnico, seja na arte, na medicina ou na engenharia.
Atualmente, quando vemos uma estátua branca esculpida em mármore, uma ópera italiana, uma pintura renascentista, prontamente atribuímos a essas manifestações culturais o termo “arte”. Contudo, diante de algo que não apenas reforça o que já foi considerado arte pela sociedade, mas que introduz o novo, muitas vezes hesitamos. Surge um estranhamento e o questionamento sobre se essa novidade é ou não arte.

Fonte, Duchamp
Exemplos disso incluem o mictório, intitulado “Fonte”, atribuído a Duchamp, ou as latas de 30 gramas de “Merda de Artista”, de Piero Manzoni. Devemos lembrar também que a fotografia e o cinema, agora amplamente aceitos como formas de arte, eram inicialmente desconhecidos pela tradição.

Merda de Artista, de Piero Manzoni
Diante dessa diversidade, podemos considerar que tudo aquilo que é arte compartilha, em alguma medida, de uma mesma essência, que apenas se manifesta de vários modos. Nesse sentido, exemplares de esculturas, pinturas, poemas, performances e de outras tantas linguagens artísticas estariam, cada exemplar ao seu modo, expressando essa essência comum, permitindo-nos chamá-los de “arte”. Um debate interessante diante dessa tentativa de atribuição de sentido ao termo “arte” seria perguntar como identificamos essa essência para que se possa distinguir o que é ou não arte no cotidiano.
Outra abordagem seria buscar critérios objetivos a partir dos quais se poderia apontar, medir, pesar, quantificar, enfim, analisar a obra para só então sabermos se se trata de arte ou não. Essa opção resolve o problema da aplicação do conceito, teórico, a candidatas reais à arte, mas levanta o problema da fundamentação: por que adotar um critério específico? Seja por critério a harmonia, a proporção, a perfeição, o estilo, a técnica, ou qualquer outro critério que se queira, o que é que pode fundamentar a adoção de um critério em especial, seja ele qual for, para tal função? Por qual motivo, por exemplo, a proporção na obra poderia ser um critério para considerar ou desconsiderar algo como arte?

Pablo Picasso, A Mulher que Chora
Tentemos de um outro modo, invertendo a relação: considerar a arte não por características do objeto, seja uma essência, seja por características objetivas e sim pelo que o sujeito sente diante do objeto. Alguns autores sugerem que uma obra de arte entretém as faculdades mentais sem que nenhum conceito a ela se adeque plenamente, ou que proporciona um prazer desinteressado, ou, então, que diante da arte o sujeito se sente livre temporariamente das necessidades e desejos mundanos, entre outras considerações possíveis que têm por foco o sujeito, não o objeto. Nessa linha de argumentação, não interessaria nem se quem produziu a obra foi um ser humano, um outro animal ou uma inteligência artificial, tão somente importaria o que o espectador sentiu diante dela. Com tamanha prioridade no espectador, se alguém pinta um quadro, o deixa na garagem e ninguém o vê, e essa garagem pega fogo, esse quadro nunca foi arte? E se alguém realiza uma performance em uma praça pública deserta, isso não pode ser considerado arte porque ninguém presenciou?
Diante dessas e outras dificuldades, alguns preferem sugerir que usamos a palavra “arte”, assim como as demais palavras, como um combinado em sociedade. Trata-se de um acordo social. O cão, por exemplo, ele não seria, de fato, um cão. Os seres humanos combinaram em dado momento que chamariam aquele tipo de animal de cão. É só um combinado que esquecemos que se tratou tão somente disso. Entretanto, por mais que haja mudanças quanto ao tamanho, a cor, ao comprimento dos pelos e demais características dos cães, eles ainda mantêm certa familiaridade entre si que possibilita que reconheçamos sem maiores problemas se um animal é ou não um cão. Já em relação a uma obra de arte o mesmo não acontece. São várias as linguagens artísticas e, mesmo em uma mesma linguagem há inovações, exemplares drasticamente distintos de outros estilos daquilo que foi considerado arte em tempos passados. E é dito arte também.
Nesse sentido, diante da novidade, quem é que combina o que pode ser chamado de arte? Um museu? Um curador? Um crítico? Um professor? O próprio artista? O público? A mídia? Quem é que decide quem é ou não digno de ser chamado de artista, seja Garrincha, Velázquez ou Piero Manzoni?
