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Kintsugi:  A beleza depois da ruptura e a cicatriz que se torna desenho.

Por Ana Clara OliveiraDesigner de Moda
Em:  Lifestyle16 de Jul de 2026

E se, em vez de esconder as marcas, a gente decidisse evidenciá-las? E se o que quebrou deixasse de ser um fim… e passasse a ser linguagem de um começo?

Existe uma arte japonesa que parte exatamente desse gesto: o Kintsugi; às vezes chamado de kintsukuroi. À primeira vista, é uma técnica: reparar cerâmicas quebradas com uma mistura de resina e pó de ouro. Mas, quanto mais se olha, mais fica claro que não se trata apenas de conserto.

Existe ali uma maneira de pensar o tempo, a matéria e o que fazemos com aquilo que se rompe. Quando um objeto se quebra, ele não é descartado e sim, recolhido.

Reduzir isso a um método seria pouco. Existe ali uma filosofia inteira! As fissuras não são escondidas e sim destacadas. Aos poucos, os fragmentos são reunidos. Não para esconder a fratura, mas para acompanhá-la. A linha que antes era ruptura começa a ser redesenhada em ouro.

E o que era falha se transforma em traço.

Há algo de profundamente humano nesse gesto. Porque ele não tenta voltar ao estado original. Ele não apaga o que aconteceu. Pelo contrário: incorpora a história ao próprio objeto. O ouro, nesse contexto, não entra como ostentação. Ele não serve para disfarçar. Ele serve para revelar. Para dizer: isso aconteceu. Isso deixou marca. E ainda assim — ou talvez por isso — continua existindo.

Há algo de profundamente delicado nessa escolha de não apagar.

E talvez seja por isso que artistas contemporâneos como Iku Nishikawa se aproximem dessa prática de forma tão sensível. Em seu trabalho, o kintsugi deixa de ser apenas reparo e se torna narrativa.

Essa ideia se aproxima de um pensamento mais amplo da estética japonesa, como o Wabi-sabi — essa sensibilidade para o imperfeito, o transitório, o incompleto. Uma beleza que não está no controle absoluto, mas na aceitação do que muda, do que desgastado que atravessa o tempo.

Talvez seja por isso que o kintsugi ressoe tanto fora do seu contexto original.

Porque, de algum modo, ele fala sobre nós. Sobre as interrupções que não planejamos, sobre as partes que se fragmentam, sobre o impulso quase automático de esconder, de disfarçar, de tentar parecer inteiro.

Mas também, e talvez principalmente: sobre a possibilidade de reorganizar tudo isso sem negar o que aconteceu.

De seguir com as marcas à mostra.

De transformar cicatriz em desenho.

De entender que a integridade não está na ausência de ruptura, mas na forma como ela é incorporada.

No fim, não se trata apenas de reparar algo.

Mas de transformar a ruptura em parte da beleza. Sobre o que quebra, sobre o que permanece. E sobre a possibilidade de reconstruir sem apagar.