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A linguagem e o mal-entendido

Por Leandro RochaProfessor, Doutor em Filosofia
Em:  Lifestyle8 de Mai de 2026

Imagine a cena: um casal discute. Ele diz "não é nada", ela entende "não quero falar com você". Ela diz "estou bem", ele entende "não me incomode". Ambos estão usando palavras, mas habitando mundos de significado completamente diferentes. Como isso é possível? E o que isso nos diz sobre a natureza da linguagem?

Ludwig Wittgenstein (1889–1951), em Investigações Filosóficas (publicadas postumamente em 1953), desenvolve a noção de jogos de linguagem. Mas o que é um jogo de linguagem? Trata-se de observar os diferentes usos da linguagem em nossas práticas cotidianas: ordenar, descrever, especular, fazer piadas, cumprimentar, rezar, praguejar, perguntar. Cada um desses usos constitui um jogo distinto, com regras próprias.

A palavra "vida", por exemplo, não possui um significado único que se mantém idêntico em todos os contextos. Seu sentido emerge do jogo em que é empregada. Ela funciona de modo diferente quando digo "uma cor viva", "me sinto vivo", "a vida na Terra", "a lembrança daquele dia ainda vive", "vida simples" ou "isso não é vida". Para Wittgenstein, o significado de uma palavra não é entidade abstrata que ela representa, nem imagem mental que evoca, mas seu uso. Aprendemos a usar palavras participando de práticas sociais, não decorando definições. Pensemos em como uma criança aprende a palavra "dor". Não através de definição ("dor é sensação desagradável causada por..."), mas através de jogos de linguagem: ela se machuca, chora, adultos dizem "você está com dor?", "onde dói?", ela aprende a reconhecer expressões de dor, a responder adequadamente. A criança vai gradualmente dominando o uso da palavra "dor" participando dessa prática compartilhada. Sendo assim, não há linguagem privada. Não posso ter uma linguagem que só eu entenda, cujas palavras se refiram exclusivamente a minhas sensações privadas. Porque linguagem é essencialmente pública, compartilhada, baseada em regras que só fazem sentido intersubjetivamente.

Muitos problemas filosóficos tradicionais surgem de confusões sobre jogos de linguagem. Quando perguntamos "o que é o tempo?" estamos confundindo o uso comum da palavra "tempo" com busca por essência oculta. Wittgenstein diria: olhe como usamos a palavra, não procure um significado escondido por trás dela. Ou seja, mal-entendidos surgem frequentemente porque interlocutores jogam jogos diferentes sem perceber. Um fala literal, outro metaforicamente. Um usa "liberdade" em sentido político, outro em sentido existencial. Estão usando mesmas palavras, mas jogando jogos diferentes, seguindo regras diferentes.

Joseph Kosuth, One and Three Chairs (1965)

Se Wittgenstein sugere que jogamos jogos diferentes, Hans-Georg Gadamer (1900-2002) explica por que isso acontece: cada um traz seu próprio horizonte histórico. Em Verdade e Método (1960), Gadamer desenvolve uma hermenêutica filosófica que enfatiza o mal-entendido como condição normal da compreensão. Para ele, compreender não é reconstruir pensamento original do falante (como se fosse possível acessar suas intenções puras), mas é sempre interpretar a partir de nosso próprio horizonte histórico. Cada um de nós traz pré-compreensões para qualquer encontro com texto ou fala. São compreensões prévias, estruturas de entendimento que já possuímos. Essas pré-compreensões não são obstáculos a serem eliminados, mas condições de possibilidade da compreensão. Só posso entender algo novo conectando-o com o que já sei.

Compreender, para Gadamer, é fusão de horizontes. Meu horizonte (minhas experiências, expectativas, pré-compreensões) encontra o horizonte do texto ou do outro. Não abandono meu horizonte para entrar no dele, nem simplesmente assimilo o dele ao meu. Há um encontro transformador onde ambos horizontes se modificam. Isso significa que mal-entendido não é defeito a ser corrigido, mas estrutura fundamental da compreensão. Sempre entendo de modo diferente, nunca exatamente como o outro quis dizer. Cada interpretação é produtiva, cria novos sentidos, mantém vivo o diálogo.

Pensemos na interpretação de textos clássicos. Não lemos Platão do mesmo modo que atenienses do século IV a.C. Nosso horizonte histórico é diferente. Mas isso não significa que "erramos" e eles "acertavam". Nossa interpretação, embora diferente, pode focar em aspectos que eles não viam. E leitores futuros interpretarão diferentemente de nós. O texto permanece vivo através dessa cadeia de interpretações, não apesar dela.

Então, as palavras escondem mais do que revelam? Num certo sentido, sim. Porque sempre há excesso de significado (mais sentidos possíveis do que qualquer interpretação captura) e falta de significado (nenhuma palavra diz plenamente o que queremos dizer). Estamos condenados a usar linguagem para nos comunicarmos, mas linguagem é sempre inadequada, sempre deixa resto.

Cy Twombly, Untitled (Bacchus) (2005)

Isso torna comunicação impossível? Não. Mas torna-a mais complexa, mais trabalhosa do que ingenuamente imaginamos. Comunicar não é simplesmente transmitir informação de mente para mente através de código neutro. É negociar sentidos, interpretar contextos, ajustar expectativas, tolerar ambiguidades.

Voltemos ao casal que discute, ao início deste texto. Quando ele diz "não é nada" e ela entende "não quero falar com você", estão jogando jogos de linguagem diferentes, trazendo horizontes distintos para o diálogo. E aquela peça publicitária que gerou reação inesperada? Os criadores jogavam um jogo (talvez ironia, humor, provocação), mas o público jogou outro (levou a sério e ofendeu-se, “cancelou” o produto). Mesmas palavras, mesmas imagens, mas horizontes que não se fundiram.

E é possível compreender verdadeiramente o outro? Talvez não completamente, definitivamente, sem resto. Sempre há algo que escapa, que fica não-dito, que é mal-entendido. Podemos compreender suficientemente para dialogar, cooperar, amar, viver juntos. Compreensão não precisa ser total para ser real.

René Magritte, O Filho do Homem (1964)

Talvez o problema seja esperar mais da linguagem do que ela pode dar. Queremos que palavras sejam transparentes, que comuniquem pensamentos diretamente, que eliminem toda ambiguidade. Mas linguagem é opaca, contextual, múltipla. Aceitando essa limitação, paradoxalmente, comunicamos melhor. Porque paramos de culpar o outro por "não entender" (quando talvez esteja jogando jogo de linguagem diferente), paramos de buscar significado único correto (quando texto ou fala comportam interpretações múltiplas), paramos de esperar compreensão absoluta (aceitando que mal-entendido é normal).

Um diálogo genuíno não pressupõe acordo total nem compreensão perfeita. Pressupõe disposição de interpretar caridosamente, de perguntar quando não entendemos, de tolerar ambiguidade, de aceitar que sempre haverá resto não compreendido. É nesse espaço de incompletude, de mal-entendido produtivo, de negociação constante de sentidos, que habita a possibilidade de comunidade linguística, não apesar de nossas diferenças, mas através delas.