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Afire:  Em chamas por dentro e por fora

Por Tíndaro SilvanoCoreógrafo, Bailarino e Professor
Em:  Lifestyle14 de Nov de 2025

Recentemente, uma amiga me disse que estava com vontade de rever o filme Les Uns et les Autres, de Claude Lelouch — conhecido no Brasil como Retratos da Vida. Como não o encontrei em nenhuma plataforma de streaming, resolvi apelar para uma videolocadora (acredite, ainda existe uma na minha cidade), a apenas cem metros do meu trabalho.

Como era fim de semana e o aluguel exigia dois filmes, a simpática dona da locadora sugeriu que eu levasse também Afire — cuja única referência que ela conseguiu me dar foi: “É do mesmo diretor de Corra, Lola, Corra”, o alemão Christian Petzold.

Assistimos a Retratos da Vida com entusiasmo. Um filme que eu já havia visto no cinema quatro ou cinco vezes na época do lançamento. Sorrimos, choramos, cantamos junto com os atores. Mas essa história fica para uma próxima. Aqui, quero me dedicar a falar de Afire, uma comédia dramática e também um romance, ambientado em uma pequena casa de férias no Mar Báltico — onde o calor é intenso, não chove há semanas, e algo parece prestes a explodir.

Ali, quatro jovens se reencontram — velhos e novos amigos. As florestas ressecadas ao redor começam a pegar fogo, assim como suas emoções: felicidade, luxúria e amor, mas também ciúmes, ressentimentos e tensões. Gradualmente, tudo ao redor é cercado por chamas. E, nesse processo, os personagens acabam se aproximando dentro da casa. Até que os incêndios se tornam impossíveis de ignorar.

No centro da trama está Leon (Thomas Schubert), um jovem escritor exasperado — e exasperante. Sua carranca hipnótica e punível quase não sai da memória, porque raramente abandona seu rosto: lábios carnudos que pendem com desprezo; olhos pesados, entediados, como se até revirar os olhos fosse um esforço grande demais.

Leon tenta revisar seu romance (terrivelmente ruim) durante os dias no campo, mas é assolado por exigências que considera absurdas: como seu amigo Felix (Langston Uibel) ousa convidá-lo para um mergulho? Ou pedir ajuda para consertar um vazamento no telhado? Como esperar que Leon levante um dedo — ou sorria?

Será que ninguém entende o quanto ele tem pra fazer?

Desde o primeiro momento, ainda no banco do carona, Leon já se mostra uma companhia amarga e difícil. E funciona quase como uma crítica viva à ideia de que protagonistas precisam ser simpáticos para cativar. Quando o carro quebra no meio da floresta, Leon só oferece reclamações. Quando chegam à casa e descobrem que terão um hóspede inesperado, ele resmunga e se desespera — incapaz de fazer qualquer coisa.

É verdade que ele não está totalmente errado em se incomodar, dado o barulho de música e relações sexuais vindo do quarto ao lado. Mas outro tipo de visitante encontraria muito a apreciar ali: a casa pertence à mãe de Felix (que nunca aparece), tem um quintal amplo, uma pérgola perfeita para escrever, e fica a uma curta caminhada de uma praia encantadora com vista para o Báltico.

Entre os moradores, está Nadja (Paula Beer), a hóspede misteriosa: cabelos desalinhados pelo vento, um sorriso gentil e olhos atentos que não deixam escapar nada. Ela logo percebe o olhar de Leon — uma mistura de irritação, condescendência e desejo inconveniente. E responde a isso com gentileza, mas sem abrir mão de algumas alfinetadas certeiras.

Nadja se dá bem com o tranquilo Felix, e também com o belo salva-vidas Devid (Enno Trebs), cuja presença constante aumenta ainda mais a irritação de Leon, que só observa, calado, franzindo a testa, enquanto os outros riem ao ar livre e compartilham jantares descontraídos.

Com uma câmera sempre precisa (fotografia de Hans Fromm) e uma montagem fluida e intuitiva (por Bettina Böhler), Christian Petzold transforma esse refúgio à beira-mar em uma armadilha emocional — e talvez literal. Afinal, Afire (ou Em Chamas) carrega o som constante de aviões sobrevoando, despejando água sobre as florestas em chamas.

É inevitável perguntar: essas chamas servirão a um propósito dramático literal ou simbólico? Estaria Petzold preparando um filme-catástrofe? Ou seriam os incêndios apenas um espelho do que se passa dentro daquela casa — e dentro de cada um?

Responder a essa pergunta comprometeria uma (mas não todas) das surpresas que o filme guarda.

Ao longo de Afire, Petzold realiza uma crítica mordaz, porém engraçada, ao ego artístico. O filme acompanha de perto a miopia de Leon — tão evidente para o público quanto para seu editor impaciente (Matthias Brandt). E sugere que esse tipo de alheamento não é incomum entre certos artistas.

Felizmente, também existem aqueles como Felix, um fotógrafo que tem prazos a cumprir, mas não compartilha da autoimportância do amigo. Ele não precisa “estar trabalhando” para se conectar com novas perspectivas, novas fontes de beleza e sensibilidade.

Afire talvez seja a obra mais acessível de Petzold dos últimos tempos (não à toa, ganhou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Berlim em 2023). É um filme sobre o agora — sobre homens e mulheres, amor e amizade. E também sobre a forma como a arte, às vezes, se inspira na vida… e às vezes, a distorce.

Mesmo com seu realismo contido, o filme ocasionalmente mergulha em camadas mais abstratas — seja pela voz súbita de um narrador ou pela repetição estratégica de In My Mind, da banda vienense Wallners. Uma música hipnótica, que até Leon não consegue evitar, talvez por capturar com precisão o seu refúgio mental narcisista.

Fica a dica: se ainda existe uma videolocadora na sua cidade, corra até lá e veja se Afire está disponível. É uma joia — e vale muito a pena ser vista.