Flusser propõe que a cultura em que vivemos já não é histórica no sentido clássico. Não caminhamos mais rumo ao progresso, tampouco acreditamos que a história seja uma sucessão de causas e efeitos orientada a um sentido. O que temos, no lugar disso, são programas. Estruturas pré-definidas, máquinas simbólicas que funcionam independentemente dos seus criadores. O artista, nesse cenário, não é mais o gênio iluminado por musas. É, se quiser continuar sendo artista, um programador.

Mas o que é a arte, então, nessa nova era?
Para Flusser, a arte não pode mais ser pensada com os mesmos moldes da tradição. Não se trata de expressão de sentimentos profundos, nem de reprodução da realidade, nem sequer de contestação ideológica nos moldes modernos. Esses são modelos que pertencem ao tempo da história, e o que temos agora é outra coisa. Vivemos entre aparelhos, somos moldados por eles, agimos através deles. Os aparelhos programam nossas ações, nossas escolhas, nossos desejos. E, ao mesmo tempo, escondem isso de nós. Agimos como se fôssemos livres, mas já estamos dentro do jogo.
Tradicionalmente, a arte funcionava como uma forma de “embriaguez”: uma suspensão momentânea da ordem cultural, uma ruptura estética que nos retirava, ainda que por um instante, do peso da lógica. No entanto, Flusser distingue essa “embriaguez” da simples fuga. A arte, ao contrário das drogas, não se limita a um recuo privado. Ela realiza um movimento duplo: retração e retorno. Primeiro recua da cultura em direção ao imediato, apenas para retornar com uma nova forma de mediação, com um novo modo de ver e dizer, transformando essa experiência em algo comunicável, público, compartilhável. É precisamente nesse movimento de retorno que reside a especificidade da arte: ela não apenas escapa da mediação cultural, mas a reinventa, criando novas formas de mediação. O artista emigra da cultura para reinvadir a cultura. Sua obra não é uma negação da técnica, mas um uso consciente e provocativo dela. O artista não rejeita os aparelhos, ele os utiliza contra si mesmos.
Se os aparelhos tendem a reduzir toda ação a funcionamento, toda decisão a programa, a arte emerge como possibilidade de quebrar essa lógica. Nesse contexto, o aparelho fotográfico torna-se emblemático. Mais do que um instrumento, ele é o modelo do funcionamento da sociedade contemporânea. Assim como o fotógrafo opera dentro de um conjunto de possibilidades pré-programadas, todos nós, artistas ou não, agimos dentro de um mundo técnico que determina, antecipa e canaliza nossas decisões. O desafio da arte, portanto, não é simplesmente criar algo novo, mas interromper a previsibilidade do programa.
Flusser aposta que essa interrupção ainda é possível. Mas ela exige um novo tipo de artista: não apenas criador, mas jogador lúcido. Alguém que compreende os códigos e as regras dos aparelhos, mas que não se limita a segui-los. Alguém que sabe que mesmo a transgressão pode estar prevista e ainda assim busca os pontos cegos do sistema. Aqui, a arte aparece como um jogo contra os jogos: um gesto que escapa, que escancara, que distorce.
É por isso que Flusser vê valor especial na fotografia experimental, na imagem que não apenas reproduz o mundo visível, mas que interroga o funcionamento da imagem técnica. Porque é nesse gesto que o artista reabre a possibilidade da liberdade. Não uma liberdade romântica, transcendental, mas uma liberdade situada, uma liberdade dentro da programação, nos interstícios do sistema.
Ainda assim, há riscos. Os aparelhos têm uma capacidade admirável de absorver e neutralizar a crítica. A indústria cultural, o design programado, os algoritmos de curadoria automatizada, tudo isso demonstra como os gestos artísticos podem rapidamente ser recuperados e transformados em funcionamento. O artista precisa, nessa perspectiva, estar em constante reinvenção, sempre um passo à frente da captura, sempre buscando uma nova embriaguez, uma embriaguez lúcida, consciente, que não nega a técnica, mas a expõe e a dobra.
A pergunta já não é mais: “como a arte pode nos libertar da cultura?”, mas sim: “como a arte pode nos libertar dentro da cultura programada?” Essa é a virada fundamental. A arte não é mais o fora, é o dentro em ruptura. A resistência não é mais externa, mas incorporada: opera a partir dos códigos, infiltrando-se nos programas, reescrevendo as regras do jogo.
A arte, então, em tempos pós-históricos, é o espaço onde ainda é possível experimentar a liberdade. Não uma liberdade ilusória, como aquela vendida pelos aparelhos de consumo, mas uma liberdade real: a de inventar novas formas de mediação. A arte, para Flusser, é um jogo arriscado, mas talvez seja o único jogo que ainda vale a pena jogar.
