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Como uma obra de arte pode revelar o absoluto?

Uma pintura pode conter o universo inteiro? Como uma simples estátua poderia revelar o infinito? Por que um filósofo alemão do século XIX considerava a arte mais importante que a própria filosofia?

Bernini, Apollo e Dafne

7 minutos

A palavra "absoluto", frequentemente utilizada por Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854), refere-se àquela realidade fundamental que antecede e fundamenta toda separação entre sujeito e objeto, entre consciência e mundo. Em seu pensamento, especialmente em sua obra Sistema do Idealismo Transcendental (1800), Schelling propõe que a arte seria a manifestação sensível desse Absoluto, tornando acessível aos nossos sentidos aquilo que, por definição, transcende qualquer limitação.

Mas o que significa dizer que a arte manifesta o infinito no finito? Para Schelling, cada obra de arte autêntica realiza um pequeno milagre: apresenta, em forma limitada e concreta, algo da totalidade ilimitada do ser. Quando contemplamos a Pietà de Michelangelo, por exemplo, não estamos apenas diante de um bloco de mármore esculpido, mas experimentamos algo que transcende a matéria física da obra. Essa transcendência não é acidental, mas constitui a própria essência da experiência estética.

Michelangelo, A Pietà (1498-1499)

Schelling dialogava intensamente com as ideias de Kant, que havia separado natureza e liberdade, e de Fichte, que priorizava o Eu como fundamento da realidade. Diferentemente de seus antecessores, Schelling buscava uma conciliação: nem só natureza, nem só espírito, mas a unidade fundamental de ambos. E é na arte que ele encontra essa unidade realizada concretamente.

O que torna uma obra de arte tão especial na visão de Schelling? Para ele, cada criação artística autêntica nasce de uma peculiar contradição: ela é simultaneamente produto de uma atividade consciente (o trabalho técnico do artista) e de uma força inconsciente (o impulso criador que transcende a vontade individual). Pense em Mozart compondo suas sinfonias: parte de seu trabalho era calculado e técnico, mas havia também algo que parecia fluir através dele, algo que o próprio compositor não controlava inteiramente.

Esta interação entre consciente e inconsciente se manifesta no que Schelling chamava de gênio artístico. Diferente do talento, que pode ser cultivado metodicamente, o gênio possui uma capacidade de harmonizar essas duas dimensões, produzindo algo que parece ao mesmo tempo inteiramente planejado e completamente natural. É como se a natureza criadora continuasse seu trabalho através do artista.

E por que Schelling considera a arte como órgão da filosofia? Este termo, que pode soar estranho aos nossos ouvidos contemporâneos, indica uma posição radical: se a filosofia busca compreender o Absoluto através de conceitos, a arte o apresenta diretamente à intuição. Quando Schelling afirma isso, ele inverte a hierarquia tradicional que subordinava a arte ao pensamento conceitual. Para ele, a arte não é apenas um objeto para a reflexão filosófica, mas o próprio meio pelo qual as verdades mais profundas da filosofia se tornam acessíveis à experiência sensível.

Este último ponto nos leva a duas noções fundamentais no pensamento de Schelling: a intuição intelectual e a intuição estética. A intuição intelectual é a capacidade de apreender diretamente o Absoluto, uma forma de conhecimento que não é nem puramente sensorial nem puramente racional. A intuição estética, por sua vez, é a manifestação objetiva dessa apreensão através da arte. Na experiência estética, segundo Schelling, conseguimos intuir diretamente aquela unidade original que existe antes de qualquer separação entre sujeito e objeto, entre mente e mundo. É um conhecimento imediato, não discursivo, que nos coloca em contato direto com o Absoluto.

Rodin, O beijo (1881 – 1882)

Em suas obras posteriores, especialmente após 1809, ele desenvolveu uma filosofia da mitologia e da revelação, onde o papel da arte continuou importante, mas passou a dividir com a mitologia e a religião revelada o papel de manifestação do Absoluto. A mitologia, em particular, passou a ser vista como elemento fundamental para compreender como o Absoluto se revela na história humana através de símbolos e narrativas.

Enquanto seu contemporâneo Hegel viria a considerar a arte como uma manifestação do Espírito que seria superada pela religião e pela filosofia, Schelling manteve a singularidade e a irredutibilidade da experiência estética. Para ele, a arte não era um estágio a ser ultrapassado, mas uma dimensão permanente e insubstituível da experiência humana do Absoluto.

É interessante notar como a noção de Absoluto em Schelling dialoga com a noção de infinito desenvolvida por seu contemporâneo Schlegel. Enquanto Schelling concebe o Absoluto como uma unidade primordial que fundamenta toda existência e que se manifesta diretamente através da arte, Schlegel entende o infinito como algo que nunca se apresenta completamente, mas que a arte constantemente sugere por meio da ironia romântica e da forma fragmentária. Se para Schelling a arte é o “órgão" que revela o Absoluto de maneira sensível e imediata, para Schlegel ela é um processo infinito de aproximação que reconhece seus próprios limites. Enquanto Schelling busca na arte a reconciliação final entre sujeito e objeto, consciente e inconsciente, Schlegel valoriza precisamente a tensão criativa e o movimento perpétuo entre diferentes perspectivas. Ainda assim, ambos filósofos convergem ao reconhecerem que a arte transcende os limites da razão conceitual, oferecendo um acesso privilegiado àquilo que, por sua própria natureza, excede nossa compreensão finita.

A visão de Schelling sobre a natureza como obra de arte inconsciente e a arte como natureza consciente de si mesma problematiza as divisões habituais entre natural e artificial, entre criação humana e processos naturais. Quando ele sugere essa continuidade profunda entre a atividade criadora da natureza e a do artista, ele apresenta uma concepção orgânica e vitalista da natureza, com motivações metafísicas profundas e originais para sua época.

Munch, O Grito (1893)

É importante observar que, para Schelling, nem todas as formas artísticas revelam o Absoluto com a mesma intensidade. Em textos como as Lições sobre o método do estudo acadêmico (1803), ele apresenta uma hierarquia das artes, onde certas formas (como a tragédia e determinadas expressões da poesia) possuem maior capacidade de manifestar o Absoluto devido à sua estrutura e ao modo como combinam elementos conscientes e inconscientes da criação.

O pensamento estético de Schelling se configura como uma possibilidade de compreensão da arte não como mero entretenimento ou expressão subjetiva, mas como revelação de uma verdade ontológica fundamental. Se a arte é verdadeiramente a manifestação sensível do Absoluto, então cada obra de arte autêntica nos oferece um vislumbre daquela unidade primordial que fundamenta toda existência, uma unidade que a razão conceitual, por si só, nunca poderia apreender completamente.