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Conclave:  Um thriller político hipnotizante

Por Tíndaro SilvanoCoreógrafo, Bailarino e Professor
Em:  Lifestyle20 de Mar de 2025

O filme “Conclave” é inegavelmente um sucesso. Trata-se de um thriller político emocionante, ambientado na luta pelo poder ideológico dentro da maior instituição da Igreja Católica: o Vaticano. O enredo é bem construído, com reviravoltas sutis, e o tema se destaca por ser tratado com profundidade. No entanto, o verdadeiro ponto forte do filme está na encenação: uma fotografia magnífica, enquadramentos precisos e o uso hipnotizante de simbolismos.

Após o sucesso de “Nada de Novo no Front”, o cineasta alemão Edward Berger encontrou em “Conclave” um novo e instigante desafio. A história da eleição de um novo soberano pontífice é, por si só, um tema promissor, revelando os segredos e as torpezas de um mundo fechado. O filme cumpre perfeitamente a proposta de ser um thriller religioso e, sobretudo, político. “Conclave” surge como um sério candidato ao Oscar deste ano, com um enredo dramático e surpreendente.

A narrativa é marcada por uma sucessão de reviravoltas que expõem a luta pelo poder na Igreja, enquanto refletem um caleidoscópio da sociedade contemporânea. As atuações de Stanley Tucci e, em especial, de Ralph Fiennes são brilhantes e elevam a tensão do filme. A escrita é cuidadosamente elaborada, equilibrando a caracterização dos personagens com a gestão precisa dos momentos de suspense. O roteiro não teme retratar os cardeais em suas facetas caricaturais, dividindo-os entre os campos conservador e reformista, sem aprofundar excessivamente para não prejudicar o ritmo.

A interpretação de Ralph Fiennes, em particular, é tão consistente que pode lhe garantir uma indicação ao Oscar. Embora a primeira parte do filme tenha um ritmo mais lento, a segunda metade se transforma em um thriller psicológico, mantendo o suspense e revelando os conflitos e escândalos da eleição papal. O desfecho é especialmente surpreendente, ressaltando o profundo debate entre os cardeais sobre a tradição da Igreja e as demandas do mundo moderno. A trilha sonora, ao mesmo tempo assustadora e opressiva, intensifica a tensão do filme, enquanto os momentos de silêncio ampliam o peso do não dito e das lutas internas.

Visualmente, o filme é uma obra de arte. A fotografia, com cores austeras e contrastes marcantes, cria uma atmosfera pesada e mística. Os planos detalhados, como os focos nas mãos trêmulas, transmitem o poder e os dilemas dos personagens. Certos enquadramentos flertam com o cinema de terror, especialmente na forma como a Capela Sistina e seus cantos sombrios são filmados.

O filme também explora a política intrínseca à religião, com personagens divididos entre a fé sincera e a manipulação política. Essa dualidade é reforçada por interpretações magistrais, em que a crença genuína de alguns contrasta brutalmente com as ambições cínicas de outros.

Uma cena memorável apresenta uma visão aérea de uma pintura religiosa, subitamente interrompida por uma explosão de luz, que parece simbolizar um momento de graça ou uma revelação brutal, dissipando a escuridão simbólica. O filme também toca, com sutileza mas impacto, no tema do papel da mulher na Igreja, destacando as contradições de uma instituição ancorada em tradições antiquadas.

Isabella Rossellini brilha como Irmã Agnès, administrando com segurança e leveza a complexa logística de acolher 108 cardeais. Sua personagem supervisiona cada detalhe – dos dormitórios às refeições – e desempenha um papel crucial em uma das cenas mais tensas do filme.

Algumas imagens são particularmente marcantes: o corredor quase funerário dos dormitórios de mármore com portas vermelhas, o balé dos guarda-chuvas brancos na Praça de São Pedro, e o esplendor dos trajes roxos na Capela Sistina. O filme ainda oferece diálogos afiados, com destaque para as tensas conversas no refeitório.

A reviravolta final é ousada e provocadora: os cardeais, sem saber, elegem um inesperado candidato que sequer estava na disputa. Essa escolha subverte as expectativas, questionando os fundamentos da Igreja e levantando reflexões profundas sobre gênero, poder e fé. O desfecho, inesperado e irônico, é diabolicamente provocador e certamente alimentará debates intensos e acalorados.