Friedrich Nietzsche parte da constatação de que não existe uma autoridade religiosa, moral ou filosófica que diga, de fora, o que a vida deve ser. Os valores que organizavam a existência ocidental perderam o chão. O abismo está aberto. Diante disso, ele propõe criação. Se os valores precisam ser inventados, o lugar dessa invenção é a própria vida.
A metáfora que ele usa é a do artista. Um escultor não rejeita o bloco de pedra por ter rachaduras. Ele trabalha com o que tem e encontra uma forma possível dentro do material real. O mesmo vale para a existência. Trata-se de assumir tudo o que se é, inclusive o que parece defeito, e integrar isso em uma direção, em uma forma reconhecível. Forças e fraquezas entram no mesmo trabalho. O critério é uma organização que dá direção ao conjunto, uma unidade de estilo.
Isso exige um olhar sem concessões, ver as próprias limitações tão claramente quanto as qualidades. Tornar-se quem se é, e não uma cópia de padrões herdados, exige um trabalho ativo de descoberta e afirmação do que há de próprio em cada um.
Há, no entanto, um ponto em que a metáfora do escultor deixa algo em aberto. O escultor escolhe o bloco de pedra. Na vida, o material se impõe. O corpo que se tem, a família em que se nasce, as perdas que acontecem. O que fazer com o que não pode ser escolhido?

Michelangelo. Escravo Atlante (1525–1530)
A resposta de Nietzsche é que não se trata apenas de aceitar o que aconteceu, mas de aprender a querer que tenha sido assim. Querer a dor que veio, o acidente que mudou os planos, o erro que não tem conserto. Isso vale pelo que fizeram de você e pelo que se tornou possível a partir disso. Trata-se de uma afirmação que transforma inclusive o sofrimento em material de trabalho. O bloco, apesar de não ter sido escolhido, pode ser assumido. As rachaduras fazem parte da obra.
Uma vida assim vivida é uma vida que não exige que o passado tenha sido diferente para valer. É uma forma de liberdade que não depende das circunstâncias, mas do modo como se trabalha com elas.
Michel Foucault chegou a uma questão semelhante por outro caminho. Durante décadas, estudou como as sociedades modernas funcionam. Como disciplinam corpos, produzem identidades, definem o que é normal e o que é desviante. Sua conclusão foi que somos constituídos, em grande parte, por forças que não escolhemos. Normas médicas, jurídicas e pedagógicas que nos moldam desde o início.

Edgar Degas, Ensaios de Balé (1872)
A pergunta que ele abre nos últimos anos é: como resistir a essa formação? Como criar modos de existência que escapem, ao menos em parte, das normas que nos constituem?
A resposta passa pela antiguidade greco-romana. Ali encontramos práticas de cuidado de si. Exercícios, hábitos e reflexões pelos quais o indivíduo trabalha sobre si mesmo. Exame da consciência, escrita, meditação, exercício físico, regulação dos impulsos. O objetivo era formar um modo de vida mais livre, mais capaz de se governar.
Esse cuidado tinha uma dimensão estética. A vida bem conduzida era uma vida bela, uma forma de vida capaz de se mostrar como exemplar. A maneira de viver era material de trabalho tanto quanto a pedra para o escultor ou a linguagem para o poeta.
O que surpreende Foucault é que, em nossa sociedade, a arte tenha sido progressivamente separada da vida e associada a objetos. Quadros, esculturas, músicas assinadas por especialistas. Na tradição antiga, a arte de viver era uma possibilidade aberta a qualquer um disposto a trabalhar sobre si mesmo. Exigia atenção, disciplina e invenção, não talento excepcional.
As propostas de Nietzsche e Foucault valem para qualquer existência, não apenas para vidas extraordinárias. Em Nietzsche, trata-se de uma forma que sustenta tensões, uma organização que dá direção ao conjunto, um estilo próprio e a disposição de afirmar o que veio. Em Foucault, trata-se de uma prática ética. Não se deixar formar passivamente, mas trabalhar sobre si mesmo e criar margens de liberdade dentro do que não se escolheu.
Há uma passagem de Nietzsche que resume o problema: ninguém pode construir, no teu lugar, a ponte que precisas para atravessar o rio da vida. Existem caminhos e pessoas dispostas a te carregar, mas ao preço de ti mesmo. Diante disso, você está construindo essa ponte, ou esperando que alguém a construa por você? Isso inclui os papéis que desempenha, os valores que carrega, as formas de conduzir o dia, as relações que cultiva. Quanto disso é realmente seu, examinado, escolhido, trabalhado, e quanto é apenas herdado, repetido por inércia?
Fazer da vida uma obra de arte é tratar a própria existência como algo que merece trabalho. E isso inclui aprender a afirmar o que não se pode mudar, porque uma obra que recusa o próprio material não chega a ser obra. Como toda obra que vale a pena, ela nunca está pronta. Pode ser retomada, revista, aprofundada. Mas há um limite para isso, e ele não depende de nós.

Pieter Claesz, Vanitas with Violin and Glass Ball (1628)
