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Gosto é questão pessoal ou existe um padrão de beleza?

Por Leandro RochaProfessor, Doutor em Filosofia
Em:  Lifestyle20 de Out de 2025

A filosofia de David Hume (1711-1776) se desenvolveu no quadro do empirismo, corrente filosófica que defende que todo conhecimento deriva primariamente da experiência sensível, e não de princípios racionais inatos ou da pura dedução lógica. Nesse sentido, para Hume, a beleza não reside nos objetos como uma característica física que pudéssemos medir ou quantificar. Ela emerge da relação entre certas qualidades dos objetos e o sentimento que elas provocam no observador. É como se a beleza acontecesse no encontro entre a obra e quem a contempla, não sendo uma propriedade exclusiva nem do objeto nem do sujeito.

David Hume

Mas, se a beleza depende do sentimento de cada observador, como explicar que algumas obras sejam universalmente admiradas através dos séculos? Como entender que Mozart, Michelangelo ou Cervantes sejam apreciados por pessoas de diferentes épocas e culturas?

Para compreender sua solução, precisamos primeiro entender um ponto fundamental de sua teoria: o sentimento, e não a razão, constitui o fundamento último de todos os juízos estéticos. Em outras palavras, quando dizemos "esta escultura é bela", estamos expressando o sentimento de prazer que ela nos causa, não um fato objetivo descoberto pela razão, como quando afirmamos que "Paris é a capital da França". Esta posição representou uma ruptura significativa com as estéticas racionalistas de sua época, teorias filosóficas que buscavam definir a beleza através de regras, proporções e princípios racionais universais.

Michaelangelo – Pietà, 1498–1499

Hume insiste: não há argumento lógico capaz de convencer alguém a sentir prazer diante de uma obra que lhe desagrada. É possível explicar por que uma composição musical segue determinadas regras de harmonia, mas isso não garantirá que alguém sinta prazer ao ouvi-la. A experiência estética é, em sua essência, uma experiência sentimental. Diante disto, como seria possível estabelecer qualquer tipo de critério estético? Se tudo se resume ao sentimento subjetivo, não estaríamos impedidos de julgar que o gosto de uma pessoa é mais refinado que o de outra?

Para resolver esse aparente impasse, Hume propõe que, embora os juízos estéticos sejam fundamentados no sentimento, existem certas regularidades na natureza humana que possibilitam o estabelecimento de padrões do gosto, um conjunto de critérios que, embora não absolutamente objetivos, encontram respaldo na constituição psicológica comum dos seres humanos. Estas regularidades não são arbitrárias. Elas se baseiam em princípios comuns a todos os seres humanos e no funcionamento semelhante de nossas faculdades mentais. A estrutura da sensibilidade humana, embora variável entre indivíduos, segue padrões reconhecíveis que permitem alguma objetividade nos juízos estéticos. Neste ponto, é importante notar que Hume não elimina completamente o papel da razão no julgamento estético. A razão, para Hume, é a faculdade que nos permite perceber relações entre ideias e fazer inferências (operação mental pela qual, a partir da experiência passada, esperamos certos efeitos no futuro, mas sem garantia lógica, apenas hábito). Ela ajuda a identificar as qualidades objetivas que causam o sentimento de prazer, mesmo que o prazer em si seja um sentimento.

Mas como conciliar concretamente estas duas perspectivas aparentemente contraditórias: a subjetividade do gosto e a existência de padrões estéticos? Hume responde introduzindo a figura do verdadeiro crítico ou crítico ideal. Este não é simplesmente alguém com opiniões mais elevadas sobre arte, mas uma pessoa que desenvolveu suas faculdades através da experiência e do estudo, tornando-se capaz de emitir juízos mais refinados e universalmente válidos. Para Hume, o crítico ideal deve possuir a capacidade de avaliar a coerência e a finalidade da obra. Além disso, precisa ter desenvolvido um sentimento delicado, uma sensibilidade capaz de perceber as nuances mais sutis da obra. A prática frequente na contemplação de determinada forma de arte também é essencial, assim como a capacidade comparativa, que vem da familiaridade com diferentes obras e permite estabelecer relações entre elas. Por fim, o crítico ideal deve mostrar ausência de preconceitos, libertando-se de vieses que possam distorcer seu julgamento.

Jacques-Louis David - A Morte de Marat, 1793

Hume recorre a uma história retirada de Dom Quixote para exemplificar sua abordagem: dois supostos especialistas em vinhos foram ridicularizados após um deles afirmar sentir gosto de couro e o outro detectar um sabor de ferro em um vinho. Posteriormente, quando o barril foi esvaziado, encontrou-se no fundo uma chave presa a uma tira de couro. Os dois degustadores tinham, efetivamente, uma sensibilidade apurada que lhes permitia detectar sabores imperceptíveis para outros. Esta metáfora ilustra como certas pessoas desenvolvem uma capacidade perceptiva superior, permitindo-lhes detectar qualidades que escapam ao observador comum. Da mesma forma, o verdadeiro crítico de arte possui um “paladar mental" refinado que lhe permite perceber nuances e qualidades nas obras de arte que passam despercebidas pelo público geral. Esta delicadeza do gosto não é um dom natural, mas o resultado de um longo processo de educação e experiência.

Outro aspecto relevante da estética humeana é sua análise do prazer que sentimos diante de obras que retratam cenas dolorosas ou terríveis. No ensaio Da tragédia, Hume enfrenta este paradoxo: como explicar que representações de sofrimento, como nas tragédias gregas ou shakespearianas, possam produzir prazer estético? Por que sentimos prazer ao presenciar tais horrores representados no palco? O paradoxo está no fato de que normalmente evitamos o sofrimento na vida real, mas o buscamos nas representações artísticas. A resposta de Hume enfatiza a transformação dos sentimentos negativos através da eloquência e da maestria artística. Para Hume, ocorre uma verdadeira "conversão" dos sentimentos negativos em positivos através da excelência artística. O horror da cena trágica é atenuado pelo prazer que a excelência da execução artística proporciona. Este movimento paradoxal da sensibilidade humana ilustra a complexidade da experiência estética e demonstra que nossos sentimentos estéticos não são simples, mas frequentemente misturados e transformados.

Se o gosto é fundamentalmente um fenômeno que ocupa uma posição intermediária entre a pura subjetividade e a objetividade absoluta, como é possível a existência de críticos de arte? Para Hume, o bom crítico não é aquele que descobre verdades objetivas sobre as obras, como se analisasse suas propriedades físicas, mas aquele que, através do refinamento de sua sensibilidade e do conhecimento da tradição, torna-se capaz de identificar as qualidades que tendem a provocar prazer estético em observadores adequadamente preparados. Assim, a autoridade do crítico não deriva de um acesso privilegiado a verdades estéticas objetivas, mas da refinada sensibilidade que desenvolveu através da prática contínua e do estudo comparativo.

Nessa perspectiva, o pensamento estético de Hume recusa tanto o objetivismo estético quanto o relativismo absoluto. Para Hume, embora os juízos estéticos sejam fundamentados no sentimento, é possível estabelecer critérios para distinguir juízos mais refinados de juízos mais grosseiros, sem com isso negar a base fundamentalmente sentimental de toda experiência estética. Hume oferece um caminho intermediário: nem a imposição de critérios estéticos absolutamente objetivos, nem o abandono de todo padrão em favor de um relativismo absoluto. A estética humeana propõe uma base sentimental para nossos juízos estéticos, bem como, a possibilidade de desenvolver e refinar nossa sensibilidade através da experiência, do estudo e da comparação.