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Kodak:  A empresa que inventou o futuro e teve medo dele

Por Arthur JungbauerEngenheiro aeronáutico
Em:  Empreendedorismo3 de Nov de 2025

Havia um ritual que fazia parte da vida de muita gente: passar na loja, comprar um rolo de filme Kodak, registrar férias, aniversários e pequenas cenas do dia a dia — sempre com aquela dúvida de quantas poses ainda restavam. Depois vinha a espera pela revelação, torcendo para que o enquadramento tivesse saído certo, para que ninguém tivesse piscado na hora. Era um processo lento, mas carregado de expectativa.

Durante o século XX, a Kodak foi praticamente sinônimo de fotografia. Seu slogan, “Kodak Moment”, virou parte da cultura popular, definindo aquelas imagens que mereciam ser eternizadas em um clique. A empresa dominava cada etapa da cadeia: fabricava câmeras, papel fotográfico, químicos de revelação e, claro, os filmes.

Na virada dos anos 1990, sua participação de mercado era estimada em 90% nos filmes e 85% nas câmeras nos EUA. Poucas empresas no mundo chegaram a um domínio tão absoluto em sua área.

O dia em que o futuro foi inventado

Em 1975, um engenheiro da própria Kodak, Steve Sasson, construiu a primeira câmera digital funcional. O protótipo pesava quase 4 kg e usava um sensor rudimentar, mas era uma revolução: dispensava filme.

Quando Sasson apresentou a invenção, os executivos reagiram com frieza. O raciocínio era simples (e fatal): se abraçassem a fotografia digital, estariam matando o coração do negócio da empresa — a venda de filmes.

“Isso é fofo… mas não conte pra ninguém”, teria sido a resposta, segundo Sasson relatou anos depois.

Crescimento às cegas

A Kodak seguiu apostando naquilo que dominava: filmes e químicos de revelação. O negócio era tão lucrativo que a empresa não enxergava razões para mudar de rota. Enquanto isso, concorrentes como Sony e Canon avançavam na fotografia digital nos anos 1980 e 1990.

Nos anos 2000, a digitalização acelerou: câmeras compactas substituíram os rolos de filme no dia a dia, e logo os celulares incorporaram lentes. Em questão de anos, o mercado central da Kodak evaporou.

A queda

Em 2012, a empresa pediu proteção contra falência nos EUA, após mais de 130 anos de operação. O choque foi enorme: uma marca que simbolizava memória, tempo e família se tornou exemplo de cegueira corporativa diante da inovação.

Curiosamente, a Kodak chegou a lançar câmeras digitais e até celulares com câmera, mas sempre atrasada e com receio de abandonar de vez o filme. Era como se tentasse manter um pé no passado e outro no futuro, mas sem firmeza em nenhum dos lados.

Hoje, a Kodak ainda existe, mas é uma sombra do que já foi. O nome sobrevive em alguns produtos digitais e no licenciamento de marca, mas perdeu o poder cultural que a fez onipresente. Mais do que nostalgia, sua trajetória virou uma metáfora de como o medo de perder o presente pode custar o futuro.