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Maneco Quinderé:  A luz como linguagem

Por OficinaO básico, reinventado
Em:  Lifestyle8 de Jun de 2026

Maneco Quinderé chegou à luz antes de saber que ela seria o seu ofício. Aos 17 anos, no Rio de Janeiro, ainda em formação informal dentro do próprio ambiente artístico que o cercava, ele foi colocado como contrarregra em uma montagem teatral. Havia um problema de iluminação no palco e ninguém conseguia resolver. Ele resolveu. A partir dali, a luz deixou de ser um acaso e passou a ser destino.

O nome de batismo, Manoel Castello Branco, ficou para documentos. O nome artístico, herdado da mãe, atravessou décadas de cena cultural brasileira e passou a circular entre teatros, palcos de shows, desfiles de moda e projetos de arquitetura. A trajetória que se formou depois daquele início improvisado se apoia menos em uma ideia de escolha e mais em uma espécie de permanência. Uma atenção contínua ao que a luz faz quando encontra o espaço.

A formação veio do convívio direto com mestres como Aurélio de Simoni e Luiz Paulo Neném, em um tempo em que o aprendizado acontecia pela observação prolongada. Não havia um manual claro, havia repetição, tentativa, e uma escuta visual que se refinava com o tempo. Dessa convivência nasceu uma geração que ajudou a consolidar a iluminação cênica no Brasil, com raízes fortes no teatro carioca dos anos 1980 e 90.

O teatro foi o primeiro território consistente. Montagens com diretores como Bia Lessa, Enrique Diaz e Gabriel Villela deram a Maneco uma base de experimentação onde a luz não servia apenas para revelar a cena, mas para criar atmosfera, ritmo e respiração. Em certos trabalhos, a iluminação parecia construir um segundo palco invisível, paralelo ao que o público via. Um crítico chegou a descrever esse efeito como uma filtragem da luz, quase como se ela atravessasse vidros coloridos antes de chegar ao olhar.

Do teatro, o caminho se expandiu para os shows. A entrada nesse universo veio pela ponte de Marisa Monte, ainda em sua fase inicial como artista. A partir daí, o repertório cresceu de forma vertiginosa. Legião Urbana, Kid Abelha, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Milton Nascimento. Cada artista exigia uma lógica própria de tempo, intensidade e presença. A luz deixava de ser cenário fixo e passava a ser performance junto com a música.

A moda surgiu em 1984, nos primeiros desfiles realizados em hotéis no Rio de Janeiro. Mais tarde, o São Paulo Fashion Week se tornaria um dos principais palcos de sua atuação, com dezenas de edições assinadas. Ali, a iluminação precisou aprender a lidar com outra temporalidade, mais rápida e mais gráfica, onde a roupa e o movimento definem a narrativa. A luz acompanha, mas também organiza o olhar.

A arquitetura entrou quase como consequência natural desse percurso. Um convite para iluminar uma casa abriu um novo campo de atuação que se desdobrou em parcerias duradouras com nomes como Arthur Casas, Isay Weinfeld e Miguel Pinto Guimarães. Nesse contexto, a luz deixou de ser evento e passou a ser permanência. Não há espetáculo, há cotidiano. Ainda assim, o princípio de construção segue o mesmo, o olhar treinado para perceber como a luz atravessa superfícies, volumes e vazios.

Ao longo dessas passagens entre linguagens, o que se mantém não é um repertório técnico fechado, mas uma forma de atenção. Maneco costuma observar que a diferença entre iluminar um palco e iluminar uma casa está na intensidade da intenção, não na natureza do gesto. A ferramenta muda menos do que o olhar que a conduz.

Ao longo de quatro décadas de trabalho, vieram prêmios como Shell, Mambembe, Sharp e Molière. Veio também uma imagem que sintetiza sua relação com o ofício, uma tatuagem de lâmpada incandescente no braço. E uma frase que condensa uma espécie de origem simbólica: devo minha vida a Thomas Edison.

No episódio de Entrando no Detalhe, Maneco revisita essa trajetória a partir de um ponto específico, a influência dos artistas plásticos em sua formação. A conversa abre espaço para entender como cores, sombras e estruturas visuais moldaram sua maneira de pensar a luz. Não como recurso técnico, mas como linguagem construída ao longo do tempo.