Um recém-finalizado filme acaba de estrear nos grandes cinemas do mundo inteiro e já vem fazendo enorme sucesso. Trata-se de Monsieur Aznavour, uma ficção biográfica sobre a trajetória do cantor francês de origem armênia Charles Aznavour, dirigida por Mehdi Idir e Grand Corps Malade, com o ator Tahar Rahim no papel principal.
Parece apropriado que um filme sobre esse ícone da música francesa — conhecido como o “Frank Sinatra da França” — encontre tanta alegria de viver nas aventuras de sua juventude. Ascendendo da pobreza como filho de refugiados armênios, Aznavour cantava com uma voz nostálgica, sempre revisitando a juventude em suas letras.
Na cinebiografia Monsieur Aznavour, a primeira metade do filme é especialmente agradável, em grande parte graças ao trabalho de câmera que mergulha o espectador na vibrante cena dos cabarés parisienses da primeira metade do século XX — com suas pequenas lâmpadas brilhando nas mesas e um clima de efervescência artística.
Mas o grande prazer dessa parte do filme é ver a espirituosa camaradagem entre o jovem Aznavour e seu parceiro de palco e pianista Pierre Roche (interpretado por um charmosíssimo Bastien Bouillon). Mesmo durante a década de 1940, sob ocupação nazista, a dupla consegue se apresentar, pedalando de cidade em cidade no sul da França quando os trens pararam de circular. Em outro momento, ao chegarem ingenuamente a Nova York sem vistos e acabarem detidos, Roche não perde o bom humor: “Vamos ver se há alguma garota por aqui”, brinca.
Um retrato de resiliência
Monsieur Aznavour é um sucesso na França e um drama biográfico que oscila entre o detalhismo e o traço mais livre. Ao contrário de outras cinebiografias musicais como Piaf, a história aqui não gira em torno do tormento, mas da resiliência e do trabalho duro — ainda que essa ética, com o tempo, pareça roubar a leveza da vida do artista. Aznavour não é capaz de dizer, como Piaf, Je ne regrette rien.
Aliás, Piaf está presente no terceiro ato do filme, quando Aznavour se torna seu protegido. Interpretada por uma excelente Marie-Julie Baup, ela é direta, sarcástica e, apesar de reconhecer o talento do jovem cantor, não poupa críticas — muitas vezes não solicitadas — à sua forma de cantar. É ela quem lhe oferece grandes oportunidades, como uma bem-sucedida temporada de dois anos em Montreal ao lado de Roche, mas também o transforma, em muitos momentos, em algo próximo de um motorista pessoal.

A sombra do preconceito
O filme também aborda as marcas do preconceito e do racismo enfrentados por Aznavour no início da carreira. Críticos franceses zombavam de sua aparência, comentando o tamanho de seu nariz e chamando-o de "estrangeiro sujo". Diziam abertamente que ele não era bonito o suficiente para cantar canções de amor.
Esses momentos trazem uma dose necessária de realidade ao retrato, que de outro modo seria quase inteiramente luminoso e idealizado. Mais importante ainda: mostram como foi ao escrever letras em que usava “je” e “tu”, enfrentando seus próprios defeitos e vulnerabilidades, que Aznavour encontrou sua verdadeira conexão com o público — em mais de mil canções.
Um final embriagado de nostalgia
O capítulo final do filme se aproxima de uma montagem estendida de apresentações e recortes de shows, mas há ali um apelo legítimo à nostalgia. A essa altura, vemos um Aznavour dominado pela necessidade de continuar se apresentando, mesmo sem mais precisar — emocional ou financeiramente — subir ao palco. Há relações interrompidas, filhos negligenciados, e uma busca quase obsessiva por mais público, mais reconhecimento, mais sucesso.
Ainda assim, Monsieur Aznavour é, em essência, um retrato caloroso e celebratório. E se no fim tudo parece afundar num banho de luzes, canções e taças de champanhe, talvez esse seja o convite do filme: esquecer, por um instante, os mil sonhos não realizados — e mergulhar na trilha de um artista que os sonhou por nós.
