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Na outra margem, entre as árvores

Por Tíndaro SilvanoCoreógrafo, Bailarino e Professor
Em:  Lifestyle1 de Out de 2025

No início dos anos 1950, o romance Do Outro Lado do Rio e Entre as Árvores, de Ernest Hemingway, foi serializado na revista Cosmopolitan antes de ser publicado como livro em setembro daquele ano. A obra, no entanto, foi duramente criticada, o que teria magoado Hemingway profundamente. Apenas dois anos depois, ele percorreria um caminho existencial semelhante — embora com cenário e enredo diferentes — rumo ao enorme sucesso de crítica e público com O Velho e o Mar. Hemingway faleceria menos de uma década depois.

Apesar de sua obra ter sido adaptada várias vezes para o cinema, Na outra margem, entre as árvores (Across the River and Into the Trees, no original) nunca havia sido levada às telas até recentemente. Isso mudou com o roteiro de Peter Flannery e a direção sensível de Paula Ortiz, que assumiu o projeto com uma mão firme e discreta.

Um filme modesto, mas tocante

Este é um filme belo, comedidamente ambicioso. E sua maior força está em Liev Schreiber, no papel do Coronel Richard Cantwell. Schreiber, um ator frequentemente subestimado, tem uma longa carreira marcada por versatilidade. Aqui, ele encarna com perfeição um protagonista hemingwayano: durão por fora, mas profundamente vulnerável por dentro. Seu olhar revela mais do que suas palavras.

Cantwell é um veterano da Segunda Guerra Mundial que retorna à Veneza enfrentando uma doença terminal. Seu médico (Danny Huston) o aconselha a parar de beber e fumar, na tentativa de prolongar seus dias. Mas Cantwell não se importa. Está decidido a ir a Veneza para caçar patos — um plano pouco convincente, como quase tudo que se tenta justificar diante da morte. O médico, então, força um jovem motorista militar (Josh Hutcherson) a acompanhá-lo, numa missão que o rapaz não pode recusar, por mais que tente.

A delicadeza de um encontro

Já em Veneza, o coronel conhece Renata (vivida por Matilda De Angelis), uma jovem condessa prestes a se casar. Apesar do título nobre, sua família é pobre e vê no casamento com uma família rica italiana uma forma de sobrevivência. “Tudo na minha vida tem 600 anos”, diz Renata, resumindo com melancolia o peso de sua linhagem.

A adaptação simplifica vários aspectos da narrativa original — e isso é uma decisão acertada. Ortiz foca nos rostos, na química silenciosa entre Schreiber e De Angelis. A diferença de idade é mencionada, mas nunca se torna o centro da trama. Algumas marcas do romance, como o uso de “filha” como apelido carinhoso, foram deixadas de lado, com razão.

O verdadeiro centro do filme é essa relação frágil e intermitente entre dois personagens que se encontram no limite de suas trajetórias. É também o ponto alto do romance de Hemingway. Todo o resto — as figuras secundárias, a ambientação militar, os ecos da guerra — orbitam essa conexão fugaz.

Veneza em silêncio

Laura Morante também se destaca como a Condessa Contarini, mãe de Renata. Mas o grande trunfo técnico do filme talvez seja a fotografia de Javier Aguirresarobe. Filmado durante os dois anos de pandemia, o longa registra uma Veneza vazia, silenciosa, quase irreal. Há uma cena em particular, na Praça São Marcos, com apenas os dois protagonistas. Uma dessas imagens que o cinema imprime na memória: vazia, melancólica, bela.

Na outra margem, entre as árvores é um filme que vale ser descoberto — de preferência após a leitura do romance de Hemingway, que continua sendo uma obra subestimada. É só ao final que se entende por que o título, aparentemente enigmático, é tão inspirado.