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O Prédio Verde:  Um desafio da restauração

Por Sofia PobleteRestauradora, escaladora e mochileira
Em:  Lifestyle10 de Mar de 2025

Você já viu uma pintura parietal, uma parede histórica ou um afresco restaurado e se perguntou: como isso é feito?

Restaurar é um trabalho que mistura técnica e sensibilidade. É como devolver a vitalidade a um elemento histórico ou artístico evitando apagar os sinais do tempo que ele carrega.

O processo de restauração geralmente começa com uma limpeza mecânica, realizada com o máximo de cuidado. Quando necessário — e geralmente é — recorre-se a uma limpeza química, utilizando solventes ou outros agentes que respeitam a natureza da obra. A escolha do método sempre depende do que está sendo restaurado e de suas particularidades.

Em alguns casos, é necessário estabilizar a composição interna do bem artístico para garantir sua durabilidade sem perda material. É como o corpo humano: imagine que sua pele está desidratada, parecendo porosa e com algumas partes se desprendendo de onde deveriam estar. O que você faria? Hidratar ou investigar se há algum risco maior de doença? Pois é exatamente isso que fazemos: hidratamos e estabilizamos conforme a necessidade que o bem artístico e seu “corpo” demandam.

Depois disso, vem a etapa de nivelar as camadas de tinta e preparação, para que tudo fique uniforme novamente. Esse processo será realizado apenas nas partes afetadas pelo famoso fator de deterioração chamado tecnicamente de perda material.

Então começa a reintegração cromática, que utiliza técnicas como tratteggio, pontilhismo ou abstração cromática. Essas técnicas servem para integrar a nova cor e, ao mesmo tempo, permitir sua diferenciação do original.

A técnica do pontilhismo é usada na reintegração cromática para preencher áreas onde a pintura original foi perdida. Pontos minuciosamente aplicados recriam a cor e a textura, harmonizando o visual sem confundir o que é novo e o que é original, mantendo a autenticidade da obra.

Dependendo do elemento artístico em trabalho, pode ser necessário proteger a obra com uma camada de verniz — ou não, caso não haja essa necessidade. Às vezes, essa ação acontece até antes da própria reintegração cromática.

O icônico Prédio Verde da Praça da Liberdade

Exemplo fascinante desse processo é o Prédio Verde, localizado na esquina da Rua Gonçalves Dias com a Praça da Liberdade, em Belo Horizonte. Construído no final do século XIX, em 1897, o edifício foi inicialmente destinado à Secretaria da Agricultura, Comércio e Obras Públicas. Posteriormente, abrigou a Prefeitura de Belo Horizonte até 1910 e, em seguida, sediou a Secretaria de Viação e Obras Públicas. Mais recentemente, até 2013, foi a sede administrativa do Iepha-MG (Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais).

Marouflage é uma técnica que aplica pinturas feitas sobre tela diretamente em superfícies arquitetônicas. O artista pode ter criado a obra em seu ateliê, com mais controle e conforto, antes de instalá-la no forro do teto. Na restauração, essa tela pode ser removida para ser trabalhada em ateliê e, depois, reinstalada. Contudo, optamos por restaurá-la no local, respeitando a integridade da estrutura original.

Seu interior é rico em detalhes artísticos, como o forro decorativo de Frederico Antônio Steckel, com marouflage detalhado representando anjos, além de pinturas parietais que simbolizam as quatro estações: inverno, primavera, verão e outono.

Descendo pela famosa escada monumental de ferro, importada da Bélgica, chegamos ao notável afresco que homenageia a agricultura. A composição apresenta uma figura central envolta por diversas decorações de elementos arquitetônicos e vegetais , como a planta do tabaco e sementes de café — ícones representativos da cultura brasileira.

Essa obra é um verdadeiro exemplo de arte refinada, com uma técnica apurada de pintura a fresco. Ao longo do tempo, o afresco passou por diversas intervenções de restauro, e uma delas é visível no uso do tratteggio — uma técnica que simula as cores originais por meio de listras de diferentes tonalidades, criando uma vibração visual que engana o olhar e dá a impressão de unidade cromática.

Desde junho de 2024, uma equipe interdisciplinar composta por engenheiros, arquitetos, marceneiros e restauradores iniciou a intervenção integral no Prédio Verde, realizada pela Construpower Engenharia. A restauração incluiu desde o piso até o forro do teto, além da fachada, cujo trabalho será realizado em 2025.

No interior, as pinturas parietais do forro e das paredes dos três andares foram restauradas em coordenação com a equipe de pintura. A interação orgânica entre os restauradores e os pintores foi fundamental para garantir um resultado harmonioso e funcional.

Visão principal do Prédio Verde, onde é possível ver o afresco principal no centro, cercado por pinturas parietais.

O afresco principal também recebeu uma intervenção detalhada, assim como as mísulas e outros elementos decorativos com aparência de mármore, localizados no hall e em outros espaços do prédio, como os rodapés.

As mísulas são elementos decorativos e estruturais que sustentam partes do prédio, como colunas. No Prédio Verde, combinam funcionalidade estrutural com um acabamento artístico refinado. A restauração delas exigiu técnicas delicadas para recuperar o acabamento sem comprometer sua estrutura.

Como descobrir a pintura original de um prédio que passou por intervenções?

Um dos desafios mais fascinantes da equipe de restauração foi a criação das chamadas "janelas de prospecção".

São espaços de média dimensão que nos permitem viajar no tempo até o momento de origem. Nesse processo, trabalhamos eliminando camadas sobrepostas de pintura — às vezes até oito — para alcançar a pintura original com a qual o edifício foi criado e decorado.

As janelas de prospecção revelam o passado escondido sob camadas de tinta. Cada camada representa os estilos e preferências de diferentes épocas, até chegarmos à pintura original, com a qual o prédio foi decorado e que reflete sua essência artística e histórica. Em certas ocasiões as janelas são restauradas e não se restaura toda a parede por completo, mas apenas as janela aberta, para que o espectador entenda o passado e o presente.

Em cada sala, é determinado o estado de conservação da pintura, seu interesse histórico e artístico, e suas dimensões. A passagem do tempo revela como os gostos de diferentes épocas influenciaram cada elemento artístico. Às vezes, grandes detalhes, que hoje enxergamos como uma verdadeira expressão da beleza artística humana, eram ocultados por serem considerados uma repetição visual na época. Esse sentimento pode ter dado origem a respostas mais simplistas, como a escolha por uma pintura lisa.

Os gostos estilísticos afetaram todos os países, culturas e tradições, contribuindo para a riqueza e a diversidade artística que nos define como seres humanos.

Agora, com o interior restaurado, o próximo passo é revitalizar a fachada, que ganhará uma nova vida e nos permitirá viajar pela essência do passado, aceitando suas marcas do tempo e hidratando o presente. Assim, o Prédio Verde será um exemplo de preservação patrimonial, um verdadeiro orgulho de trabalho interdisciplinar, com grande qualidade artística, que continua a nos surpreender neste maravilhoso estado do Brasil.