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Redes Sociais:  O problema de transformar tudo em conteúdo

Por Leandro RochaProfessor, Doutor em Filosofia
Em:  Lifestyle8 de Set de 2026

Há algo de curioso nessa compulsão. Pesquisadores já identificaram o que chamam de efeito de prejuízo causado pelo ato de fotografar: quando as pessoas dependem da tecnologia para lembrar por elas, contando com a câmera para registrar o evento sem precisar vivê-lo plenamente, isso pode ter um impacto negativo sobre como se lembram de suas experiências. Em outras palavras, registrar sistematicamente tende a deslocar parte da atenção necessária para consolidar certas lembranças. Se você vai a um show e passa 90 minutos filmando, focando num bom ângulo, isso pode reduzir tanto o prazer da fruição do momento quanto a memória que você terá dele. A ironia é que o esforço de capturar o momento consome o momento.

Martin Parr/Magnum photos

Sartre (1905 – 1980) descreveu algo que ajuda a entender por que isso acontece com tanta facilidade. Para ele, a presença do olhar do outro altera profundamente nossa relação conosco mesmos. Quando percebemos que somos vistos, deixamos de existir apenas como consciência absorta numa situação e passamos a nos perceber também como imagem. O olhar do outro nos "fixa" e nos "possui": enquanto para nós mesmos permanecemos um projeto aberto e em movimento, passamos a existir também como objeto para o outro à medida que aparecemos para eles. A vergonha é o sinal filosófico desse momento: a consciência de que existe uma versão de mim circulando num espaço que não controlo.

As redes sociais intensificam esse mecanismo de modo contínuo e sem pausa. O perfil funciona como uma narrativa permanente de si mesmo: escolhemos imagens, legendas, enquadramentos, versões publicáveis da vida cotidiana. Muitas experiências já são vividas sob a antecipação do olhar alheio. A viagem começa orientada para as fotos que vai gerar. O jantar existe já como postagem potencial. O corpo é administrado como superfície visível antes de ser sentido como experiência.

Guy Debord (1931 – 1994), filósofo francês que em 1967 escreveu A Sociedade do Espetáculo, antecipou a estrutura desse problema décadas antes das redes sociais. Para ele, as experiências humanas diretas são progressivamente substituídas por representações mediadas por imagens, publicidade e cultura de consumo. O espetáculo, na sua definição, é uma forma de organização social através da qual a experiência vivida real é substituída por representações. Essas representações são aceitas como verdade, mesmo enquanto mediam e distorcem a realidade. A formulação que resume tudo isso tem a precisão de uma sentença: Debord argumenta que a história da vida social pode ser compreendida como o declínio do ser para o ter, e do ter para o meramente parecer.

Ser, ter, parecer. As três etapas descrevem uma trajetória que se acelerou com as redes. Primeiro importava o que você era. Depois importava o que você tinha. Hoje, em larga medida, importa o que você parece ter. A experiência vivida foi cedendo espaço à sua imagem circulante. E aos poucos a imagem começou a organizar a experiência, e não o contrário.

Pensemos numa situação simples. Alguém vai a um show de que gosta muito. Durante várias músicas, grava vídeos, tira fotos, alterna entre o palco e a tela do celular. Depois, ao rever as gravações, percebe algo curioso: registrou o evento inteiro, mas lembra pouco da experiência de ter estado ali. Smartphones permitem que eventos sejam registrados enquanto se desenrolam, o que dirige a atenção e às vezes prejudica a memória. O registro simultâneo pode dividir ou direcionar a atenção, com consequências para o que é lembrado depois. Quem filma o show continuamente talvez construa mais um arquivo do que uma memória, ou seja, quanto mais a atenção se desloca para o registro, menos ela permanece na experiência imediata.

Existe uma diferença importante entre registrar algo depois de vivê-lo e viver algo já antecipando sua transformação em conteúdo. A primeira operação documenta. A segunda reorganiza. Quando a câmera chega antes da atenção, a experiência começa a ser enquadrada para o olhar externo antes de ser habitada por dentro. A viagem deixa de ser deslocamento e descoberta para se tornar, nas palavras de Debord, um conjunto de representações mediadas que substituem o contato direto com o mundo.

Nesse sentido, passamos a existir simultaneamente em dois planos. Há a experiência vivida e há a experiência convertida em imagem social. Os dois planos nunca coincidem completamente. Daí a sensação de irrealidade que a vida contemporânea produz tantas vezes: a impressão de estar sempre um pouco fora do próprio momento, observando-o de um ângulo ligeiramente externo enquanto ainda tenta vivê-lo.

A experiência humana sempre foi atravessada por representações. Pinturas rupestres, diários, álbuns de família: registrar o vivido é algo antigo. O que muda é a simultaneidade e a orientação, smartphones permitem o registro síncrono dos eventos enquanto acontecem, ao invés de uma externalização retrospectiva. Quando o registro vem depois, ele preserva. Quando vem durante, ele concorre com a atenção que a própria experiência precisaria.

Martin Parr/Magnum photos

Há experiências que mudam de natureza no momento em que começam a ser preparadas para circulação. Um encontro que já nasce como história a ser contada. Uma emoção que surge acompanhada do impulso de descrevê-la. Um lugar visitado com um olho no enquadramento “ideal” que já foi feito e publicizado por outros. A consciência do olhar alheio antecipado, que Sartre descrevia como algo que nos tira da espontaneidade, tornou-se condição de fundo de boa parte da vida cotidiana.

Aos poucos, corremos o risco de trocar a densidade da experiência pela administração contínua de sua aparência. E o paradoxo talvez seja este: quanto mais registramos, menos preservamos, porque o registro consome a atenção que transformaria o momento em memória real. A câmera lembra. A pessoa esquece.

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