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Paris é uma Festa, Hemingway é um Gigante

Por Tíndaro SilvanoCoreógrafo, Bailarino e Professor
Em:  Lifestyle23 de Jan de 2026

Há alguns meses, recebi do meu irmão mais velho a sugestão de assistir ao filme Do Outro Lado do Rio e em Direção às Árvores, baseado na obra homônima de Ernest Hemingway. A partir dali, fui impelido a revisitar o que fosse possível da obra desse ícone da literatura mundial. Para quem se interessar, há aqui uma resenha que escrevi sobre o filme — veja bem, sobre o filme, não o livro.

Desta vez, venho falar sobre outro livro espetacular do autor: o intenso Paris é uma Festa. Embora tenha sido publicado postumamente, a obra aborda os anos em que Hemingway viveu em Paris, entre 1921 e 1926 — ainda um escritor em ascensão, cercado por outros nomes marcantes da chamada “Geração Perdida”, composta por artistas e escritores americanos que migraram para a cidade na mesma década.

Hemingway e sua primeira esposa, Hadley Richardson, mudaram-se para Paris em 1921. Na época, ele escrevia artigos para um jornal canadense de Toronto e trabalhava como freelancer para revistas e outros periódicos, ao mesmo tempo em que aprimorava sua escrita em contos e romances.

Édouard Cortès – Café de Paris

Grande parte de seus dias era passada em cafés parisienses, onde escrevia e observava. No livro, encontramos descrições de lugares que hoje se tornaram ícones culturais, como o Quartier Latin no 5º arrondissement, a brasserie La Closerie des Lilas, o café Deux Magots, a livraria Shakespeare & Company e o Jardin du Luxembourg. Esses cenários ajudavam a moldar o imaginário e a disciplina do jovem escritor.

À primeira vista, alguns trechos do livro podem parecer relatos triviais de refeições e passeios. Mas, à medida que avançamos, encontramos detalhes saborosos sobre figuras contemporâneas de Hemingway, como Gertrude Stein, Ezra Pound, Ford Madox Ford, T.S. Eliot, e principalmente Scott e Zelda Fitzgerald.

O casal Fitzgerald, aliás, ocupa um espaço especial na narrativa. Um dos episódios mais marcantes é a viagem de carro que Hemingway e Scott fizeram da Suíça até Paris — cheia de imprevistos, humor e uma tensão latente que revela a intensidade da amizade entre os dois autores.

Outro destaque é sua relação com Gertrude Stein, que o ajudava financeiramente em tempos difíceis e o incentivava a gastar com arte em vez de roupas. O livro sugere que essa amizade terminou abruptamente, mas os motivos permanecem envoltos em silêncio — o capítulo que trata disso é intencionalmente vago.

Henri de Toulouse-Lautrec – Le Divan Japonais ou Jane Avril

Hemingway não economiza nos juízos de valor. Demonstra desdém, explícito ou velado, por muitos com quem conviveu na Paris dos anos 1920. Algumas exceções são notáveis: Ezra Pound, Evan Shipman e Sylvia Beach (dona da Shakespeare & Company). Cada menção a Pound beira a reverência, destacando seus esforços para criar uma fundação que o libertasse do trabalho num banco. Já Shipman, ainda desconhecido como poeta, conquistou o respeito de Hemingway por cavar a terra para alimentar outras pessoas — um gesto de humildade e compromisso.

A livraria de Sylvia Beach era um ponto de encontro para escritores expatriados de língua inglesa. Ali, Hemingway encontrava não apenas livros, mas uma comunidade criativa. Segundo consta, foi durante esse período que ele registrou suas experiências em uma série de cadernos, com a intenção de transformá-los em livro — o que só aconteceria décadas mais tarde.

Paul Signac – Pont des Arts – Paris (1912)

Paris é uma Festa foi o último projeto de escrita que Hemingway tentou concluir. Já doente, consumido pelo câncer e esgotado emocionalmente, ele não chegou ao fim. Em 1961, decidiu tirar a própria vida. Sua quarta esposa, Mary, finalizou a organização dos textos e publicou o livro de forma póstuma, a partir das anotações e manuscritos deixados por ele.

Embora não trate de seus outros relacionamentos, o livro deixa claro que Hemingway jamais deixou de amar Hadley. A culpa o acompanhou até o fim, e ele nunca fugiu dela.

Paris é uma Festa é um dos grandes diários de um escritor americano. É uma leitura leve, mas não rasa. Há profundidade, emoção e introspecção em cada página. Você termina a leitura com a impressão de ter caminhado por uma Paris íntima e cheia de vida — uma cidade que pulsa tanto quanto o jovem Hemingway que a habitava.