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Será que a beleza é apenas algo superficial?

Por Leandro RochaProfessor, Doutor em Filosofia
Em:  Lifestyle5 de Nov de 2025

Para Plotino (204/5 d.C. - 270 d.C.), filósofo que viveu no Império Romano e desenvolveu o neoplatonismo (uma corrente filosófica que retoma e reinterpreta as ideias de Platão), o belo que captamos com nossos sentidos funciona como um caminho que permite à nossa alma retornar à sua verdadeira origem, que é divina e transcendente, isto é, que está além do mundo material.

A palavra "belo" em Plotino não se refere apenas àquilo que agrada aos olhos ou aos ouvidos. Representa um traço da perfeição ideal que se manifesta no mundo físico. Quando admiramos uma escultura grega, uma construção harmoniosa ou um rosto, Plotino sugere ir além dessa admiração superficial, permitindo-nos perceber, através dessas formas visíveis, algo invisível e perfeito que lhes dá sentido.

Para compreender essa noção, precisamos conhecer como Plotino imagina a estrutura da realidade. Para ele, tudo o que existe tem sua origem em uma fonte única, que ele chama de "o Uno". O Uno é o princípio primeiro, absolutamente simples (sem partes) e indivisível, impossível de ser definido por palavras ou conceitos, pois está além de tudo o que podemos pensar. Plotino o descreve como "perfeito", mas não no sentido de ter qualidades perfeitas e sim porque não precisa de nada e não tem nenhuma deficiência. É como se a própria ideia de perfeição fosse pequena demais para descrevê-lo. O Uno é a fonte de toda existência, como se fosse uma fonte inesgotável de luz.

Desse Uno surge, não por uma criação voluntária, mas por um transbordamento natural (como a luz que irradia do sol sem que o sol precise querer emiti-la), uma primeira realidade que Plotino chama de "Nous". Esta palavra grega pode ser traduzida como Intelecto ou Inteligência, mas não é uma mente individual como a nossa. O Nous é o reino do pensamento puro, onde existem todas as Ideias ou Formas perfeitas (noção que Plotino herda de Platão), os modelos eternos e imutáveis de todas as coisas que existem no mundo, como a Ideia de Beleza em si, a Ideia de Justiça em si, e assim por diante.

Do Nous procede uma terceira realidade, que Plotino chama de Alma. Não uma alma individual, mas um princípio cósmico que gera vida e movimento. É a Alma que, finalmente, produz o mundo material, o mundo físico que percebemos com nossos sentidos. Essas três realidades fundamentais (Uno, Nous e Alma) são chamadas por Plotino de "hipóstases", palavra grega que significa substâncias ou realidades fundamentais.

Bernini, A fonte dos quatro rios (1648-1651)

Esse processo pelo qual tudo flui do Uno não ocorre em etapas separadas, como degraus de uma escada, mas acontece em um fluxo contínuo e necessário, que Plotino chama de emanação (do latim emanare, ou seja, fluir de). É como se a realidade fosse uma grande fonte de água, em que o Uno seria a nascente, e todas as outras coisas fossem os rios, riachos e gotas que fluem dessa fonte, gradualmente se afastando da origem.

Na visão de Plotino, o movimento da realidade tem duas direções fundamentais: a processão, que é esse fluir de tudo a partir do Uno; e a conversão, que é o movimento de retorno de todas as coisas em direção à sua origem divina, como se tudo que existe sentisse saudade de sua fonte e desejasse voltar a ela. A beleza, nesse contexto, seria como um sinal luminoso nesse caminho de volta, um chamado para que nossa alma se lembre de sua verdadeira natureza e busque retornar à sua origem.

Diante disso, poderíamos perguntar: como podemos reconhecer esse chamado do belo em meio a tantas sensações e aparências que recebemos do mundo?

Para o filósofo, características como harmonia, proporção e unidade na diversidade são sinais da presença do inteligível (aquilo que só pode ser captado pela inteligência, não pelos sentidos) no sensível (aquilo que captamos pelos sentidos). Uma estátua bem proporcionada, por exemplo, manifesta no mármore uma ordem e uma unidade que refletem as Formas perfeitas que existem no Nous.

Vênus de Milo (130-100 a.C.)

Para Plotino, o encontro com a beleza autêntica exige mais do que apenas observação. Requer uma purificação (em grego, katharsis) da alma. Esta purificação consiste em livrar a alma das distrações e apegos ao mundo material que a impedem de reconhecer sua verdadeira natureza espiritual. Poderíamos comparar esse processo à limpeza de um espelho empoeirado: quando o espelho está limpo, ele pode refletir claramente a luz; similarmente, quando a alma está purificada, ela pode reconhecer no belo um reflexo de sua própria origem divina.

Diante da verdadeira beleza, a alma experimenta um despertar, um reconhecimento de algo familiar e íntimo, como se ela se lembrasse de algo que havia esquecido. Trata-se de uma transformação interior: ao contemplar o belo, a alma se torna, ela própria, mais bela, participando (isto é, tomando parte, compartilhando) da natureza daquilo que contempla.

Bernini, O Êxtase de Santa Teresa (1647-1652)

E quanto aos artistas e suas criações? Para Plotino, o verdadeiro artista não se limita a copiar as aparências do mundo físico. Em momentos de inspiração, ele pode elevar sua alma para contemplar as próprias Formas ideais presentes no Nous e, assim, expressar em sua obra algo do esplendor inteligível que captou. O artista autêntico, portanto, não é um mero imitador da natureza, mas alguém que consegue manifestar o inteligível (o ideal, o perfeito) no sensível (a matéria, o objeto físico). Poderíamos dizer que o grande artista não copia o que vê com os olhos, mas expressa o que contempla com a alma.

Em Plotino, o Belo e o Bem estão intimamente relacionados, embora sejam distintos. O Bem é uma característica própria do Nous (o Intelecto divino), enquanto o Uno está além até mesmo do Bem, sendo sua fonte primordial, mas não podendo ser definido por qualquer qualidade específica. O belo manifesta no mundo físico a ordem e a harmonia que derivam desse Bem inteligível. Por isso, para Plotino, o verdadeiro encontro com o belo não é apenas agradável, mas também nos torna eticamente melhores, aproximando-nos de nossa natureza espiritual original.

Laocoonte e seus filhos (séc. I a.C.)

Existe uma tensão no pensamento de Plotino: por um lado, ele valoriza a beleza que encontramos no mundo físico como um caminho para a elevação espiritual; por outro, ele vê a materialidade, o apego excessivo ao físico e corporal, como um potencial obstáculo a essa elevação. Esta tensão se resolve na compreensão de que a beleza sensível não deve ser negada, mas ultrapassada. Ela é um ponto de partida, não um fim em si mesma. Ao atrair o olhar da alma, a beleza dos corpos e das formas conduz, idealmente, à contemplação das realidades superiores, onde reside a verdadeira Beleza.

Seja ao contemplarmos uma escultura, ouvirmos uma melodia harmoniosa ou admirarmos a beleza da natureza, para Plotino isso é uma oportunidade de perceber nessas experiências um chamado para que nossa alma desperte, reconheça sua verdadeira natureza e inicie seu caminho de retorno à fonte divina de onde veio.