Quatro anos após "A Queda do Império Americano", o diretor canadense Denys Arcand, premiado em 2004 com um Oscar e três Césars por "As Invasões Bárbaras", retorna com "Testament". O filme, estrelado por seu ator favorito Rémy Girard, também conta com Sophie Lorain, Marie-Mai e Guylaine Tremblay, renomadas atrizes canadenses, em seu elenco.
Rémy Girard interpreta Jean-Michel, um homem solteiro de 70 anos que parece ter perdido o rumo na sociedade atual e pouco espera da vida. No entanto, na casa de repouso onde mora, ele testemunha um evento incomum: Suzanne, a diretora, é atacada por jovens manifestantes que exigem a destruição de um afresco considerado ofensivo. Observando com ironia esta era pós-pandemia, em que tudo parece estar à deriva, Jean-Michel decide assumir o controle de sua vida e, de certa forma, da vida dos outros.
Essa comédia sobre o choque de gerações nasceu da visita do diretor a um museu em Nova York, onde viu um grande mural que retratava o encontro de índios da ilha de Manhattan com um explorador holandês. Anos depois, um grupo exigiu a destruição da obra, alegando que a pintura era um insulto aos nativos, os primeiros habitantes das terras americanas. Para contornar a situação, uma vitrine foi colocada diante da pintura, com notas explicativas que corrigiam possíveis erros históricos.
No filme, Arcand optou por um cenário menor: um mural em uma pequena casa de repouso e uma diretora sobrecarregada, confrontada por um grupo de jovens que exige que ela "reescreva a história". Como em seus trabalhos anteriores, o diretor destaca os excessos da sociedade e a desintegração da civilização. "Estamos entrando em um mundo radicalmente novo, que será chamado de civilização digital, tecnologia da informação, ou algo semelhante", comenta Arcand. Ele também menciona que a chegada da inteligência artificial poderá destruir nossas últimas certezas, transformando o mundo de uma forma que lembra a transição da Idade Média para a era moderna.
No entanto, Arcand não ridiculariza os manifestantes em seu filme. Ele reconhece a legitimidade de suas preocupações, dizendo que suas lutas são justas. Mesmo assim, ele questiona se indignar-se com uma pintura é a prioridade mais urgente, considerando os desafios mais significativos que os descendentes das primeiras nações enfrentam atualmente.
"Testament" oferece uma paródia da vida contemporânea, explorando temas como o wokismo com humor e sagacidade. Rémy Girard, em sua sétima colaboração com Arcand, brilha em seu papel, especialmente em cenas que abordam questões sociais com um toque de leveza. O filme também faz alusões à velhice e à sabedoria, mas mantém um tom leve e divertido. Jean-Michel, o protagonista que nunca se casou, encontra prazer na vida e desenvolve um relacionamento interessante com a jovem diretora da casa de repouso, interpretada por Sophie Lorain, que se vê desafiada por ordens burocráticas.
Os personagens do filme são bem desenvolvidos e interessantes, incluindo Marie Mai Bouchard, que interpreta uma visitante sensual na casa de repouso. Políticos são descritos como técnicos entediantes, enquanto o famoso diretor Robert Lepage faz uma breve aparição como vice-ministro da cultura, trazendo autenticidade ao filme, especialmente considerando que sua peça "Kanata", sobre as Primeiras Nações, foi proibida no Canadá.
Uma curiosidade é que Rémy Girard, conhecido por seu senso de humor autodepreciativo, cativou a todos na estreia do filme, substituindo o diretor que não pôde comparecer. Aos 73 anos, ele expressou sua gratidão por participar de um projeto do qual se orgulha muito, incentivando o público a não perder este filme que promete deixar uma sensação duradoura de bem-estar. "Testament" está em exibição nos principais cinemas ao redor do mundo, incluindo o Brasil.
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