Uma narrativa fantástica sustenta o filme de Tarsem Singh, lançado em 2006, no qual um dublê ferido conta uma fábula elaborada a uma jovem internada no mesmo hospital.
Esse épico, produzido por Spike Jonze e David Fincher, foi pouco visto em seu lançamento original e agora ganha um relançamento restaurado em 4K na plataforma de streaming MUBI.
Tarsem é um diretor indo-americano conhecido por seu trabalho em videoclipes, comerciais de TV e filmes como A Cela, estrelado por Jennifer Lopez. Dublê de Anjo (The Fall) é, sem dúvida, sua maior conquista. O projeto levou dezessete anos para explorar as locações em vinte e quatro países e quatro anos para ser filmado. Ele descreve o filme como "uma viagem mágica e misteriosa pelo mundo", mas talvez seja mais adequado dizer que é uma viagem mágica e misteriosa pela mente e pelas complexidades da narrativa — uma celebração da conexão que uma história pode construir entre duas pessoas.
Com um surrealismo marcante e ambientações no Rajastão, noroeste da Índia, o filme apresenta paisagens visuais extraordinárias. Os cenários são cativantes e incluem Justine Waddell interpretando uma princesa gloriosamente fantasiada, num papel cômico e impassível — embora seja verdade que, por vezes, o estilo plácido, imponente e fantasioso do filme possa soar exasperantemente inerte.
Uma história dentro de outra
A história se passa em Los Angeles, nos primeiros anos do cinema mudo. Lee Pace interpreta Roy, um dublê que agora está gravemente — talvez permanentemente — ferido. Internado no hospital e profundamente deprimido após uma queda durante a filmagem de um longa estrelado por sua ex-namorada, que o deixou por um ator insípido, Roy faz amizade com uma garotinha romena da ala infantil vizinha: Alexandria, interpretada pela espetacular Catinca Untaru.
Gentilmente, Roy oferece à curiosa Alexandria uma história épica de aventura, com cinco heróis enfrentando um governador odioso. Essa narrativa ganha vida diante de nossos olhos, com Roy e Alexandria aparecendo nela, em meio a uma confusão caprichosa de personagens — como índios e nativos americanos.
A magia de Catinca Untaru
A parte mais marcante deste filme é sua protagonista feminina, Catinca Untaru, então uma menina romena desconhecida de seis anos. Ela falava pouco inglês e muitas vezes pronunciava suas falas de forma incorreta — o que, paradoxalmente, resultava em falas mais poéticas do que qualquer roteirista poderia imaginar.
Segundo o diretor: “Untaru nunca viu o roteiro inteiro e só conheceu os colegas de elenco em frente às câmeras. Como resultado, sua interação tem alguns dos momentos mais naturalistas, honestos e menos cinematográficos já capturados em um filme.” Muitas vezes, ela não compreendia as falas ditas por Lee Pace, o que a levava a fazer perguntas ou repetir o que ele dizia — forçando o ritmo da cena a se adaptar. E, ainda assim, esses momentos improvisados estão entre os mais tocantes de todo o filme.
Tarsem optou por manter muitas dessas cenas. Seu nível de confiança na capacidade de Untaru de encantar o público é extraordinário. Ao assistir ao filme, tente identificar as cenas improvisadas — provavelmente serão as que mais tocam seu coração.
Camadas e intenções ocultas
Ao longo do filme, vai ficando claro que Roy tem um motivo oculto por trás de sua narrativa ao estilo de Scheherazade: ele deseja que Alexandria confie nele o suficiente para roubar um frasco de morfina da enfermaria — talvez para que ele possa tirar a própria vida.
Waddell interpreta uma enfermeira que parece ter um caso com um médico. Na história contada por Roy, ela se transforma na princesa que está noiva do inimigo, mas se apaixona por ele. Há algumas imagens surpreendentes ao longo do filme, que tem um sabor distinto, peculiar — e, acima de tudo, inesquecível.
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