De todas as marcas de champanhe, Veuve Clicquot continua a ser uma das mais conhecidas e renomadas. Mas quantos conhecem a pessoa por trás do nome?
É no mínimo paradoxal que a mulher responsável por um dos champanhes mais famosos, Barbe-Nicole Clicquot Ponsardin, permaneça tão pouco conhecida, mesmo apelidada de “a grande dama do champanhe”.
Devo admitir que, apesar de ser um grande apreciador da bebida, tudo o que sabia sobre a “Veuve Clicquot” se resumia ao seu famoso rótulo laranja que tantas ocasiões vem nos alegrando ao longo da história.
Com o nome Veuve, que significa "viúva" em francês, sempre imaginei que a vinícola pudesse pertencer a uma viúva. No entanto, eu desconhecia os detalhes de sua viuvez, os desafios familiares que enfrentou, e sua notável transformação: de uma jovem entregue em um casamento arranjado com François Clicquot a uma viúva que se tornou empresária e pioneira na produção de champanhe.
Widow Clicquot (A Viúva Clicquot)
Em 2008, o professor e especialista em vinhos Tilar Mazzeo publicou uma biografia que quinze anos depois inspirou uma adaptação cinematográfica onde a cantora, compositora e atriz americana Haley Bennett entrega uma atuação cheia de espírito e paixão no papel da famosa viúva.
A história se desenrola entre o final do século XVIII e o início do século XIX, quando Barbe-Nicole Ponsardin, aos 21 anos, se casa com François Clicquot em um casamento arranjado que durou apenas seis anos, deixando-a viúva aos 27 anos.
Tendo herdado os vários negócios do falecido, incluindo a vinha da família, a jovem fez um primeiro gesto de desafio ao recusar vendê-los, optando por assumir o comando. Para isso, precisou primeiro convencer o sogro a apoiá-la.
Ela foi contra a corrente ao decidir limitar as atividades até então diversificadas à produção exclusiva de champanhe, inventando no processo uma nova técnica de fabricação, sobre o qual falarei mais adiante.
Todos esses acontecimentos, e muitos mais, são revisitados no roteiro de Erin Dignam e Christopher Monger, que mantém o foco na protagonista em todos os momentos. Esta é a jornada de Barbe-Nicole, sua experiência, suas atribulações pessoais e profissionais e ponto final.
No que diz respeito ao lado pessoal, embora breve, o casamento entre Barbe e François é explorado no filme com profundidade e delicadeza, incorporando o elemento de ficção característico do cinema. As cenas entre o casal me pareceram surpreendentemente modernas, pois, apesar de François falar sobre Voltaire, o filósofo francês que defendia a ciência, o progresso, a tolerância às diferenças e a liberdade de expressão, o que realmente se vê ali é um homem oferecendo igualdade a uma mulher—algo raríssimo naquela época.
Foi nesse ponto que a intervenção do diretor Thomas Napper, junto com a atriz e produtora Haley Bennett, se mostrou decisiva. Nos primeiros dias de filmagem, eles optaram por abandonar a estrutura linear inicial em favor de uma narrativa não linear, que não alterou a história, mas apenas a ordem em que ela é contada. Passado e presente se entrelaçam e ressoam mutuamente.
Esse enfoque é especialmente eficaz durante as transições matrimoniais. Os primeiros flashbacks são extremamente românticos, refletindo as lembranças idealizadas de Barbe logo após sua viuvez. No entanto, à medida que a narrativa avança, o passado é revelado sob uma luz menos romântica e mais matizada, refletindo a aceitação gradual da heroína de que seu casamento não foi uma "sinecura" (um cargo ou trabalho bem remunerado que exige pouco esforço).
Dessa compreensão, Barbe extraiu grande sabedoria, embora, dado o seu progresso, seja evidente que ela não carecia de força desde o início. Haley Bennett está perfeitamente sintonizada com sua personagem, modulando brilhantemente a evolução da força de Barbe, que inicialmente é silenciosa, mas se torna cada vez mais poderosa.
A produção do champanhe
Madame Clicquot foi ousada na produção de seu champanhe, dedicando-se a pesquisas intensivas para que o precioso líquido atingisse a forma e a limpidez que conhecemos hoje.
A efervescência do champanhe ocorria devido à re-fermentação espontânea dos vinhos quando as temperaturas subiam. Uma vez descoberta essa causa, passou-se a induzir a segunda fermentação através da adição de leveduras aos vinhos já prontos. A efervescência era garantida, mas, quando o açúcar se esgotava, as leveduras morriam, formando borras que deixavam a bebida com uma aparência turva.
Para remover os sedimentos, as garrafas eram periodicamente sacudidas, concentrando as borras nas paredes. Em seguida, o líquido mais límpido era transferido para outra garrafa. Esse processo era complexo, demorado, menos eficiente em termos de limpidez e resultava em grande perda de efervescência.
Foi Antoine Müller, chef de cave contratado pela viúva Clicquot, que sugeriu uma solução inovadora: a técnica do Rémuage. Esse método cuidadoso consiste em girar as garrafas para que as leveduras se acumulem no gargalo.
A técnica foi refinada e, até 1821, era "o segredo" da limpidez dos champanhes da Veuve Clicquot, única empresa a utilizá-la. O Rémuage foi fundamental para aumentar a escala de produção do champanhe.
A visão comercial de Madame Clicquot também foi crucial. Ela desenvolveu estratégias para conquistar o mercado russo, então o maior importador de vinhos franceses. Durante a guerra, a viúva abriu suas adegas aos soldados russos, consciente do potencial desse mercado. Quando as tropas russas retornaram ao seu país, ela enviou, com a ajuda de um comerciante habilidoso, todo o estoque restante da esplêndida safra de 1811, conquistando o mercado russo sem concorrência.
Grande parte do filme foi rodada em Chablis, em uma soberba mansão ancestral. Esse cenário evocativo é um dos elementos que levou Thomas Napper a adotar uma narrativa não linear, onde o ambiente se torna um personagem em si. A mansão, com sua rica história, abriga o passado e o presente de forma intrínseca.
Este é apenas o segundo longa-metragem de Napper, mas já se pode esperar um filme elegantemente encenado, com momentos de delicadeza e graça, pois o filme é visualmente encantador do início ao fim. Isso não é surpresa, considerando que renomados colaboradores, como a diretora de fotografia Caroline Champetier e o editor Richard Marizy, trouxeram toda a sua experiência para o projeto.
Por fim, com pouco menos de uma hora e meia, o filme evita a longa duração que muitos filmes de época confundem com prestígio. Em resumo, é uma biografia efervescente e equilibrada, como um bom champanhe, que não poderia ser mais adequada. O filme está em cartaz nos melhores cinemas do país.
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