A morte é um fato absolutamente certo de nossa existência. Todos os outros eventos da vida como casamentos, doenças, sucessos e fracassos são possibilidades que podem ou não se realizar. Mas a morte não é possibilidade no sentido de "pode acontecer ou não". É certeza. E ainda assim, ou talvez por isso mesmo, é também o evento sobre o qual menos sabemos, que mais nos inquieta, que tentamos de todas as formas evitar pensar.

The Triumph of Death
Além do incômodo dos filósofos com as reflexões sobre a morte, também os artistas já confrontaram amplamente o público com o tema. Durante séculos, a arte retornou obsessivamente a um mesmo motivo: o triunfo da morte sobre todos os vivos, sem exceção de idade, riqueza ou poder. Com a temática de danças macabras medievais (revisitada por Bergman em 1957 em O Sétimo Selo), a Morte aparecia dançando lado a lado com papas, reis, camponeses e crianças, lembrando que nenhum título ou fortuna a detém. Nas naturezas-mortas vanitas do século XVII, crânios, velas quase consumidas e flores murchas compunham cenas de uma beleza que podemos chamar até de perturbadora, cujo recado era o de que tudo passa, tudo perece. Essa tradição tinha até um nome, herdado do latim: memento mori, "lembra que vais morrer". Longe de ser morbidez gratuita, era um convite a levar a vida a sério. A arte fez o que a filosofia também tenta fazer: usar a consciência da morte para provocar a viver.


Natureza-morta Vanitas, Jacques de Gheyn II (1603)
Epicuro (341–270 a.C.), em sua Carta sobre a Felicidade, cunhou um dos argumentos mais famosos sobre o medo da morte: acostuma-te à ideia de que a morte para nós não é nada, visto que todo bem e todo mal residem nas sensações, e a morte é justamente a privação das sensações.
O raciocínio de Epicuro é que enquanto existimos, a morte não está presente. Quando a morte está presente, não existimos mais. Logo, nunca experimentamos a morte. É um não-evento para nós. Como podemos temer algo que nunca experimentaremos?
Pensemos nisso: o que tememos quando dizemos temer a morte? Não pode ser a experiência de estar morto, porque não há tal experiência. A morte é o fim da experiência e não um estado que vivenciamos. Talvez tememos o processo de morrer, a dor, o sofrimento, mas isso é diferente de temer a morte em si. Ou tememos ser privados de vida futura, preocupados com os que ficam. Sobre isso, Epicuro diria que tal medo é irracional. Não sofremos por não ter vivido antes de nascermos, por que sofrer por não viver depois de morrermos?
Para Epicuro, o medo da morte tem duas fontes principais que devem ser eliminadas. A primeira é o medo de punição após a morte, de julgamento divino, de inferno. Epicuro acreditava genuinamente na existência dos deuses, mas concebia-os como seres em perfeita tranquilidade, alheios aos assuntos humanos, sem qualquer interesse em punir ou recompensar os mortais depois que morrem. A segunda fonte é o medo do não-ser, do fim absoluto. Mas esse medo é irracional porque o não-ser não é nada para nós.
Liberados desses medos, podemos viver plenamente o presente, aproveitando os prazeres simples e necessários, cultivando amizades, pensando sobre a vida. A consciência da finitude pode nos libertar para viver bem o tempo que temos.

O triunfo da morte, Giacomo Borlone de Buschis (Século XV)
Martin Heidegger (1889–1976), filósofo alemão, em sua obra Ser e Tempo (1927), sugere que a morte é a possibilidade mais pessoal, intransferível e inevitável da existência humana. A morte é a possibilidade mais pessoal porque é a única absolutamente individual. Ninguém pode morrer por mim, ninguém pode substituir-me em minha morte. Posso ter experiências compartilhadas com outras pessoas, mas minha morte é exclusivamente minha. É inevitável porque não há como evitá-la, adiá-la indefinidamente, escapar dela. É aquela possibilidade que, quando se realiza, encerra todas as outras possibilidades.
Para Heidegger, a consciência autêntica da morte transforma nossa existência. A maioria das pessoas vive de modo automático, com o dia cheio de tarefas, rotina, evitando confrontar sua própria mortalidade. Falamos da morte em terceira pessoa, "as pessoas morrem", "fulano morreu", mas não assumimos de verdade que também vamos morrer e que isso é só questão de tempo.
Viver autenticamente, para Heidegger, significa assumir que somos seres finitos. Não significa obsessionar-se morbidamente com a morte, mas reconhecer que o tempo é limitado, que cada escolha exclui outras possibilidades. Se tenho tempo limitado, preciso escolher com cautela como vivê-lo, em vez de simplesmente seguir o que se espera de mim ou minha rotina automaticamente, de modo irrefletido, “matando o tempo”.

Natureza-morta: Alegoria das Vaidades da Vida Humana, Harmen Steenwijck (1640)
A angústia diante da morte, para Heidegger, seria uma revelação de nossa condição. Na angústia, descobrimos que somos radicalmente finitos, que não há um roteiro pronto para nossa existência, que estamos lançados no mundo sem ter escolhido estar aqui. Mas é precisamente essa ausência de roteiro que torna possível a liberdade.
Quando assumo que sou um ser mortal, reconheço que minha existência não tem propósito pré-dado, não há garantias. Isso pode ser vertiginoso e também libertador. Posso escolher de forma genuína meus projetos, criar meu próprio sentido, viver de modo próprio, ainda que sempre dentro de limites históricos e culturais que não escolhi.
A morte, nessa perspectiva, é justamente aquilo que dá contorno, limite e urgência à existência. Se tivéssemos tempo infinito, cada momento perderia sua preciosidade. Cada escolha seria reversível, cada relação poderia ser adiada indefinidamente. É a finitude que torna cada instante único, cada encontro precioso, cada decisão significativa.

A Dança da Morte, Micheal Wolgemut (1493)
Emmanuel Levinas (1906–1995), filósofo de origem lituana que viveu na França, oferece ainda outra perspectiva, focando não em minha morte, mas na morte do outro. Para Levinas, a morte do outro é uma impossibilidade absoluta para mim: não posso morrer pelo outro, não posso substituí-lo em sua morte, não posso impedi-la. E é essa impotência diante da morte do outro que desmascara o quanto o outro é verdadeiramente outro, separado de mim, irredutível. O outro não é uma extensão de mim, o outro não é um objeto para meu conhecimento ou uso. A morte do outro expõe minha responsabilidade: devo responder ao outro enquanto ainda está vivo, não posso adiar indefinidamente.
Para Levinas, a ética, a pergunta sobre como devo me relacionar com o outro, nasce dessa consciência de que o outro é mortal e de que sou responsável por ele antes de qualquer escolha. O "rosto" do outro, sua presença concreta e vulnerável diante de mim, me convoca e me interpela com um apelo que Levinas descreve como "não matarás". Nesse sentido, o rosto do outro ao mesmo tempo proíbe o assassinato e expõe uma vulnerabilidade que torna o assassinato possível. É exatamente porque o outro pode ser destruído que surge a obrigação de não destruí-lo. Não é um mandamento externo vindo de fora, mas um apelo que surge do próprio encontro com a fragilidade do outro.
Nessa perspectiva, a morte não é primariamente um problema existencial individual, como em Heidegger, mas um chamado ético. A mortalidade do outro me convoca à responsabilidade. E talvez seja a consciência de que tanto eu quanto o outro somos mortais que torna possível o amor, o cuidado, a compaixão genuínos.

Vanitas (natureza-morta com crânio, livros e vela), Philippe de Champaigne (c. 1671)
Como viver concretamente diante da morte? Nossa cultura contemporânea parece oscilar entre dois extremos. Por um lado, a negação obsessiva da morte: medicina anti-envelhecimento, promessas de imortalidade digital, indústria do entretenimento que nos distrai constantemente, linguagem eufemística como em "ele partiu", "ela nos deixou" em vez de "morreu".
Por outro lado, quando a morte irrompe ficamos paralisados, sem recursos simbólicos para lidar com ela. Nossa sociedade secularizada perdeu rituais tradicionais de luto sem desenvolver novos. A morte acontece escondida em hospitais, não mais em casa rodeada de família. O luto é tratado como disfunção a ser superada rapidamente, e não raro com remédios, para voltarmos a ser "produtivos".
Talvez precisemos encontrar um meio-termo. Reconhecer que somos mortais sem sermos paralisados por isso. Usar essa consciência para viver mais plenamente, mais autenticamente, mais presentes.

O sétimo selo. Filme dirigido por Ingmar Bergman (1957)
Isso significaria, em primeiro lugar, não adiar indefinidamente aquilo que realmente importa. Quantas pessoas dizem "um dia vou viajar para aquele lugar", "um dia vou aprender aquilo", "um dia vou dizer para fulano o quanto é importante para mim"? Mas "um dia" talvez nunca chegue. A consciência da morte diria: se é importante, faça agora. Não há garantia de "depois".
Significaria também valorizar o presente e as pessoas que estão conosco agora. Como aponta Levinas, o outro é mortal. Cada encontro pode ser o último. Isso não precisa ser um pensamento angustiante, mas pode tornar cada conversa, cada refeição compartilhada, cada gesto de afeto mais precioso, mais pleno de presença.
Significaria ainda fazer as pazes com nossa vulnerabilidade. Somos seres frágeis, finitos, que adoecem, envelhecem, morrem. Nossa cultura valoriza força, juventude, invulnerabilidade. Mas negar a vulnerabilidade não a elimina, apenas nos torna menos preparados para lidar com ela quando irrompe inevitavelmente.
Significaria desenvolver rituais individuais ou coletivos para lidar com a morte e o luto. Práticas que nos permitam reconhecer a perda, expressar o luto, honrar quem partiu, e gradualmente continuar vivendo sem negar a ausência.
Significaria também questionar a lógica produtivista que reduz a vida a acumulação de experiências, de conquistas, de bens. Se vamos morrer de qualquer forma, e não podemos levar nada conosco, talvez a questão seja viver bem. E viver bem talvez tenha mais a ver com relações, presença e experiência do que com aquisições e conquistas externas.

O Triunfo da Morte, Autor desconhecido (c. 1446) Palazzo Abatellis, Palermo
Por que tememos a morte? Talvez porque, como disse Epicuro, temos crenças irracionais sobre ela. Talvez porque, como sugere Heidegger, fugimos de assumir autenticamente nossa finitude. Talvez porque, como aponta Levinas, a morte do outro nos confronta com nossa impotência fundamental e nossa responsabilidade.
E se a morte, em vez de inimiga a ser negada ou obsessão mórbida, fosse simplesmente parte da vida? E se aprender a morrer, como sugeriam os filósofos antigos, fosse, paradoxalmente, aprender a viver? Viver não no sentido de acumular anos, mas de habitar plenamente o tempo que temos.

Autorretrato com a Morte Tocando Violino, Arnold Böcklin (1872)
A morte não é nada para nós, diz Epicuro, então não devemos temê-la. A morte nos constitui, diz Heidegger, então devemos assumi-la de verdade. A morte do outro me convoca, diz Levinas, então devo responder responsavelmente. Três perspectivas apontando para a consciência lúcida da mortalidade para enriquecê-la. Tal atitude de vida diante da morte pode nos tornar mais presentes, mais autênticos, mais responsáveis. E porque no fim, e há sempre um fim, talvez só quem aceite verdadeiramente que vai morrer consiga verdadeiramente viver.
