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Summer:  Destinos de um verão não massificado.

Por OficinaO básico, reinventado
Em:  Lifestyle13 de Out de 2026

Quem passou o último verão europeu pagando o preço de uma classe executiva por uma espreguiçadeira na segunda fila sabe que o calor se tornou o menor dos incômodos. Longe dali, do Caribe ao mar da China Meridional, passando pela costa africana e pelo Índico, alguns destinos mantêm o sol aceso em março, novembro ou qualquer mês em que se consiga escapar, e seguem fora das rotas de massa o bastante para que a mesa do jantar dispense reserva com três semanas de antecedência.

SANTO ANTÃO, CABO VERDE

Não tem aeroporto, e essa ausência explica metade do encanto: chega-se de barco, numa travessia de uma hora a partir do Mindelo, em São Vicente, para desembarcar entre a cratera verde da Cova, os vales do Paul plantados de cana e as trilhas em ziguezague que despencam das montanhas até aldeias de pescadores onde o almoço depende do que saiu do mar pela manhã. Entre uma descida e outra, um copo de grogue destilado no alambique do vizinho ajuda a entender por que ninguém anda com pressa por lá, e a temperatura estável dispensa qualquer planejamento de estação.

LANZAROTE, ILHAS CANÁRIAS

O artista César Manrique voltou de Nova York em 1966 decidido a impedir que sua terra natal virasse mais um paredão de hotéis, e em boa parte venceu, já que até hoje a paisagem quase não tem prédios altos nem outdoors à beira da estrada. O resultado se vê em Jameos del Agua, onde ele instalou bar, piscina e auditório dentro de um túnel de lava, e na casa de Taro de Tahíche, construída sobre cinco bolhas vulcânicas. Sobra ainda uma tarde para La Geria, onde as videiras crescem em buracos cavados na cinza negra, protegidas do vento por muretas de pedra curvas, e o malvasia seco que sai dali acompanha bem a sensação de ter escapado do resort.

ILHA DAS FLORES, INDONÉSIA

Os barcos que partem de Labuan Bajo rumo aos dragões de Komodo levam, em geral, gente que nunca pisou no outro lado de Flores, e é nesse resto que a viagem acontece. A estrada que cruza a ilha de ponta a ponta atravessa vulcões e arrozais em terraço até o leste, onde os três lagos da cratera do Kelimutu mudam de cor ao longo dos anos, e no caminho dá para dormir em Wae Rebo, aldeia de casas cônicas de palha no meio da floresta, a algumas horas de subida da estrada mais próxima.

RODRIGUES, MAURÍCIO

A 600 quilômetros de Maurício e a cerca de uma hora e meia de voo, Rodrigues vive no ritmo da lagoa que a cerca, duas vezes maior do que a própria terra firme, onde as mulheres saem na maré baixa para pescar polvo a pé e depois o penduram para secar em varais na beira da estrada. A capital, Port Mathurin, cabe num sábado de feira, e o resto da semana se divide entre enseadas vazias no sudeste, como Trou d'Argent, e almoços de polvo ao curry servidos em casas de família, onde ninguém vai perguntar qual é o seu programa para amanhã.

SOCOTRA, IÊMEN

Isolado por anos pela guerra no continente, o arquipélago iemenita no Índico continua sendo um dos lugares menos tocados do planeta, e a viagem pede alguma coragem. Chegar exige voo fretado a partir de Abu Dhabi, guia local credenciado e uma consulta atenta às recomendações de viagem do Itamaraty. Quem vai encontra o planalto de Dixam coberto de árvores de sangue-de-dragão com as copas abertas em guarda-chuva, dunas brancas descendo até a água em Zahek, a caverna de Hoq com inscrições deixadas por marinheiros há dois mil anos e cerca de um terço das plantas sem registro em nenhum outro ponto do planeta.

TODOS SANTOS, MÉXICO

Uma hora de estrada ao norte de Cabo San Lucas, do lado do Pacífico, Todos Santos cresceu em torno de uma missão jesuíta e de engenhos de cana que já fecharam, e hoje reúne galerias de artistas, hortas orgânicas abastecendo as cozinhas da cidade e as pangas dos pescadores de Punta Lobos, que chegam à areia no fim da tarde com o peixe do jantar. As ondas de Los Cerritos atraem surfistas em qualquer mês, e entre dezembro e abril as baleias-jubarte passam perto o bastante da praia para dispensar o passeio de barco.

PLACENCIA, BELIZE

Uma faixa de areia com 26 quilômetros separa a lagoa do Caribe no sul de Belize, e nela cabem a vila de Placencia, cuja rua principal é uma calçada estreita demais para carros, e Seine Bight, aldeia garífuna onde o hudut, peixe no leite de coco com purê de banana-da-terra, sai de panelas domésticas. A barreira de corais fica a meia hora de barco, e entre março e junho, nos dias seguintes à lua cheia, tubarões-baleia aparecem em Gladden Spit atrás da desova dos peixes, com a ressalva de que a temporada de furacões vai de junho a novembro.

DELTA DO SINÉ-SALOUM, SENEGAL

A três horas de Dakar, o rio Saloum se desfaz em cerca de 200 ilhotas de mangue, e a viagem acontece de piroga, entre ostras presas às raízes e bandos de pelicanos que não se incomodam com o barco. Na borda norte do delta, Joal-Fadiouth é uma aldeia construída sobre conchas, ligada ao continente por uma ponte de madeira, com um cemitério onde cristãos e muçulmanos dividem o mesmo chão branco. Os ecolodges são pequenos, faz calor o ano inteiro, e as chuvas se concentram de julho a outubro.

TIWAI, SERRA LEOA

Cercada pelo rio Moa no sul do país, Tiwai tem 12 quilômetros quadrados de floresta intacta e uma das maiores concentrações de primatas da África Ocidental, com onze espécies, entre elas o chimpanzé e o colobo-vermelho, além de mais de 130 tipos de aves e do hipopótamo-pigmeu, que pouca gente consegue ver. Chega-se de carro e canoa, com boa dose de paciência, e o Tiwai Eco-Lodge, operado em parceria com as comunidades vizinhas, oferece cabanas simples, cozinha com ingredientes nativos e trilhas guiadas por naturalistas que reconhecem cada som do mato, num dos últimos lugares do mundo onde nenhum influenciador fincou o pau de selfie. A estação seca, de novembro a abril, facilita o acesso.

DAKHLA, MARROCOS

Numa península de 40 quilômetros entre o Atlântico e uma lagoa rasa, no Saara Ocidental, território cuja soberania o Marrocos disputa com a Frente Polisário, Dakhla tem vento constante, temperatura entre 20 e 28 graus em qualquer mês e água lisa o bastante para ter virado uma das capitais do kitesurf sem ter virado cenário. As ostras criadas na própria lagoa custam pouco nos restaurantes do porto, e na maré baixa a Duna Branca emerge no meio da água, cercada de flamingos.

VILANCULOS, MOÇAMBIQUE

No litoral de Inhambane, Vilanculos é a porta de entrada para o arquipélago de Bazaruto, parque nacional onde vive a última população viável de dugongos da costa leste africana, e a travessia se faz de dhow, com vela triangular e o barqueiro decidindo a hora pelo vento. Os lodges são pequenos, o caril de caranguejo chega com matapa, e o português falado nas ruas encurta qualquer distância para o viajante brasileiro, mesmo em julho, quando o chamado inverno local mantém os dias perto dos 25 graus.

QUY NHON, VIETNAM

Entre Da Nang e Nha Trang, Quy Nhon ficou fora do roteiro estrangeiro tempo suficiente para que as peixarias do porto ainda abasteçam sobretudo os moradores e as torres Cham do século 12 recebam poucos visitantes. Ao norte, a praia de Ky Co e o penhasco de Eo Gio se alcançam de barco ou moto, e a baía abriga poucos hotéis de padrão internacional, o que explica o silêncio na areia fora dos feriados vietnamitas. A exceção climática fica entre outubro e dezembro, quando chove.

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